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JNR:
Há uma coisa que me
intriga, quando é que o professor se enamorou deste tema? MM:
Se
bem me recordo, foi há uns 4 ou 5 anos, por influência de um
professor francês, meu amigo, Jacques DeBandt, quando ele começou
a falar muito em serviços informacionais, tratamento de informação,
e aprendizagem., JNR:
Qual
foi o autor que mais o influenciou nessa caminhada? MM:
Julgo
que, basicamente, foi o nosso bom amigo comum, que é um veterano de
muita coisa, Peter Drucker. Mas devo dizer, que lembrando as peripécias
do meu percurso pessoal, a chave do meu fascínio, resulta de ter
percebido a certa altura que o interesse pela «economia do
conhecimento» vinha na continuidade do meu fascínio, no começo da
carreira académica, pela «economia do trabalho». Nos anos 60,
essa foi a temática sobre a qual preparei a minha tese de
doutoramento e de cujo ensino fui pioneiro Ora, a certa altura
apercebi-me, que de alguma forma, o lugar que «a economia do
trabalho» tinha no capitalismo, a sua função central, corresponde
hoje ao mercado do conhecimento. Dalgum modo, pareceu-me que do
trabalho se tinha passado para o conhecimento como chave da
compreensão do nosso sistema económico. JNR:
Como é que o
professor caracterizaria esta tal «nova economia», digamos assim? MM No sentido do «realmente
existente» e não do apologético, acho que há basicamente duas
coisas a referir: o uso cada vez mais generalizado das novas
tecnologias da informação e da comunicação (TIC), e isto tem de
facto consequências, diria dramáticas, no funcionamento das
organizações e dos mercados; por outro lado, é algo intimamente
relacionado com um outro tema muito popular, que é o da globalização.
A globalização e essa intensa competição no mercado global,
juntamente com a disponibilidade das novas tecnologias da informação
e da comunicação, têm muito a ver com a emergente economia do
conhecimento ou EBC (Economia Baseada no Conhecimento ou, na expressão
original inglesa, KBE, isto é, Knowledge Based Economy). Há um
esforço constante de inovação no sentido amplo do termo, que
inclui não só a inovação no sentido mais exigente e radical mas
também no sentido incremental ou marginal. Portanto, é daqui que
vem a procura adicional de conhecimento para sobrevivência no
mercado global. É preciso inovar, repito inovação mesmo no
sentido fraco do termo, o que determina uma necessidade do
conhecimento adicional, para orientar essa inovação, e daí vem a
tendência para a emergente economia baseada no conhecimento. JNR:
Mas
acha que essa economia baseada no conhecimento é ao alcance da
generalidade dos países? Não acha que é específico apenas para
alguns? MM:
Trata-se
de saber exactamente, se uma dada economia já é uma economia
baseada no conhecimento. Quer dizer, por exemplo, Portugal ainda não
é. Mas a Noruega sim, já pode ser assim considerada, julgo eu.
Onde é que está a fronteira, quando é que se chega a essa etapa,
a esse estado da economia do conhecimento? Talvez i possa fazer
uma analogia um pouco caricatural. O Jorge também sabe bem que,
hoje, se fala muito no desenvolvimento humano e há um índice anual
da ONU sobre isso, que vai de De qualquer maneira, põe-se
a questão de saber se efectivamente, os países que estão mais atrás
poderão um dia chegar a qualquer coisa que mereça a designação
de «economia baseada no conhecimento». Há um exercício que eu
recomendo aos nossos ouvintes, que é utilizar a metodologia do
Banco Mundial conhecida por KAM (Knowledge Assessment Methodology) O
KAM permite, entre outras coisas, o cálculo dum índice da economia
do desenvolvimento que varia de zero a dez. Por exemplo, não
encontrei Cabo Verde na classificação, pois o país tem falta de
estatísticas, mas a maioria dos países do mundo está
referenciada. Portanto, olha-se para um mapa e no topo, muito perto
de dez, está a Finlândia. No princípio da tabela, como seria de
esperar, está Angola, tem menos de um. Eu creio que se pode dizer
que um país já está na etapa da economia do devolvimento, quando
tem pelo menos 8. E isso, porque a Europa Ocidental no seu conjunto
tem oito virgula qualquer coisa. Portugal, ainda não chegou lá. A
questão que me pode colocar a seguir, naturalmente, é saber como
é que o Banco Mundial faz esta classificação, em que se baseia. JNR:
Com efeito, quais é
que são as baterias? Quais são os conjuntos de indicadores
dominantes? MM:
Aí, utilizando uma
linguagem pouco baseada no conhecimento, é que a “porca torce o
rabo”, e encontramos a fragilidade destas classificações. O
Banco Mundial toma por base quatro pilares, quer dizer, fazem as
contas a partir de quatro áreas: a infra estrutura tecnológica no
dominio das tecnologias da informação e da comunicação; o
sistema educativo, ou seja, os niveis educacionais da população; o
sistema de inovação, até que ponto é que os países têm condições
ambientais favoráveis à inovação; o aspecto que designam por
incentivo económico, no fundo são as características gerais do
sistema económico. Este último aspecto, está próximo daqueles
indicadores que remetem para o chamado Consenso de Washington, ou
seja, o sistema fiscal, o equilíbrio das finanças públicas, a
garantia dos direitos de propriedade, da propriedade intelectual, em
particular, a administração da justiça. Aqui fico um bocado
desconfiado porque não é simples nem fácil ordenar estas coisas:
por exemplo, a França tem mais dois pontos do que a Alemanha, em
certas matérias. Será justa a classificação? É uma característica
que eu tenho há muitos anos, os alunos dizem muitas vezes isso,
comigo começa-se a aula com algumas dúvidas e acaba-se ainda com
mais… JNR: Há
no entanto um critério, por exemplo, do Peter Drucher, num relatório
recente, que é o critério da objectividade. Muitos desses
indicadores que indicou são claramente objectivos, a despesa em
investigação e desenvolvimento, tecnologia, pessoal licenciado,
pessoal doutorado; mas há uma segunda
tranche de indicadores, que já são mais subjectivos e podem
confundir a identificação do problema, Entre outros, há um
aspecto que ele focou, a propósito da economia do conhecimento, que
é o seguinte: o grande aumento do número de protagonistas que
detem esse novo capital intelectual. Num estudo estatístico que fez
para os países desenvolvidos, concluiu que por volta dos anos 80,
os chamados «trabalhadores do conhecimento» já deveriam ser 12.5%
da população activa. É um número já significativo. e projecta
para 2000, vinte anos depois, um
peso na ordem dos 16%, o que
se traduz num patamar já com algum significado, com algum
peso real, o peso real
nas famílias, peso real nos eleitores, portanto, peso real na
população. O que acha de importante para se monitorizar através
de outro tipo de indicadores? MM: Uma coisa que me
chamou a atenção num texto de Drucker sobre essa matéria, é a
ideia de que esses trabalhadores do conhecimento, esses sujeitos que
têm o domínio de determinado tipo de tecnologias e de
conhecimento, ocupam na população activa dos Estados Unidos,
aproximadamente o lugar que ocupavam os operários da indústria por
volta de 1950 / 1960. Portanto, onde tínhamos os colarinhos azuis,
os operários, aqueles que depois vão fazer a grande força do
sindicalismo, agora temos esta categoria de mão-de-obra, com
caracteristicas muito diferentes. À primeira vista, portanto, isto
é alguma coisa de fortemente positivo, é uma proporção crescente
e significativa da população activa que vai entrando nesta
economia e nesta sociedade
do conhecimento. Mas há um outro
lado da questão A analogia pode ser
levado um pouco mais longe, e num sentido, enfim, um bocado
caricatural: hoje estamos a substituir um proletariado da indústria
por um proletariado do conhecimento. O que é que quero dizer com
isso? Essa evolução para ser feliz, para ser bem sucedida, devera
garantir um equilíbrio entre a oferta e a procura dos tais «trabalhadores
do conhecimento». Mas tal equilíbrio não está garantido. Pode acontecer, e a
questão é sempre mais dramática nos países que estão mais
atrasados, que a oferta cresça muito mais rapidamente do que a
procura. Ou seja, gera-se um desemprego ou sub-emprego desse tipo de
trabalhadores de conhecimento, e é o que está a acontecer em
Portugal, o que é um paradoxo.. Isto é apenas uma
parte da história, mas acho que é uma parte importante. Situação
agravada no contexto europeu e aqui em Portugal, pois como sabe, os
imigrantes que vêm da Europa Central e Oriental de uma maneira
geral, têm qualificações mais elevadas do que a maioria dos
portugueses. Portanto, há aqui um problema de crescimento
desequilibrado: a oferta dos tais «trabalhadores do conhecimento»,
entre nós, parece crescer prematuramente. Este é o lado sombrio da
situação. Mas, sem dúvida, há o lado, que eu acho positivo: Esse
tipo de desempregado tem
conhecimento especializado, domina certas tecnologias,
ou seja, apesar de tudo, agora tem uma possibilidade que
outros não tinham, de acorrer às oportunidades que lhe vão
surgindo aqui e acolá. Isto é, trata-se dum indivíduo que está
mais capaz, está muito mais agilizado, para aproveitar
oportunidades que lhe possam surgir. E isto em dois
sentidos pelo menos. Por um lado, quem mais sabe mais pode aprender,
é senhor de maior capacidade de aprendizagem. E no outro sentido
que é o sentido (por assim dizer) geográfico do termo. Todos nós
hoje temos os pés menos «presos ao chão», no sentido seguinte: a
mobilidade humana hoje, pelo menos potencial, é muito maior do que
no passado. Claro que a globalização e o desenvolvimento tecnológico
têm a ver com isso. JNR:
Um canadiano, o reitor
de uma Business School do Canadá, que é um dos discípulos do
Drucker, Roger Martin, fez
um estudo sobre o que estava a ocorrer no seio dessa camada dos
trabalhadores do conhecimento.. O que se verifica é que houve muita
gente que, através do novo papel do conhecimento, pôde desenvolver
uma ascensão social, e em certos casos tornou-se uma camada de
elite, que se organizou em diversas camadas profissionais. E mesmo
nessas novas empresas, os gestores, no sentido puro do termo, não são
mais do que uma camada
dos trabalhadores do conhecimento. Nos últimos quarenta anos ganhou
um peso nevrálgico nas empresas, a ponto de ter mais peso do que os
empresários ou os próprios accionistas. Mas também se formou uma
massa crescente de gente, quer por efeito do outsourcing, do
offshore, do desemprego estrutural, etc., que ainda que dominando os
seus próprios meios de produção, está numa situação desfavorável.
Mesmo que tenham capacidades de empregabilidade, termo que agora se
usa, e que dominem os seus próprios meios de produção, estão de
facto a evoluir para uma situação de relativa inferioridade..
Segundo Roger Martin, há o duas tendências de fracturas possíveis:
uma entre a própria elite dos trabalhadores do conhecimento, e
outra em relação à camada dos accionistas.. Já não são também
os empresários tradicionais, muitos deles são detentores
colectivos dos fundos de pensões. Há possibilidade de uma fractura
entre esta nova elite e os próprios detentores actuais do capital;
e há uma outra fractura que se desenvolve progressivamente, entre
uma massa de gente qualificada. Se atendemos por
exemplo, à China, à India, à Ásia em geral, é uma massa que se
desenvolverá rapidamente, num crescimento exponencial. As
possibilidades de surgir uma massificação desse tipo de gente são
enormes, mas a economia do conhecimento parece também gerar novas
linhas de fractura MM: Bom, haveria imensas
coisas a reagir em relação aos problemas que coloca. Eu começo
por uma nota muito simples à qual sou muito sensível. Todas estas
matérias, julgo eu, são matérias emergentes, que estão a
acontecer há pouco tempo, que têm muitos vectores, e portanto, é
difícil avaliar em conjunto para onde tudo isto tende. Se o indivíduo
quer sobreviver na sociedade, necessita de grande capacidade de
adaptação. Quando penso no Portugal do final dos anos 50, recordo
um país sem esperança, um país cinzento, um país de censura,
intelectualmente fechado. Foi nesse Portugal que eu terminei o meu
curso de economista, juntamente com mais uns vinte ou trinta, éramos
trabalhadores do conhecimento da altura. Tivemos carreiras
extraordinárias, para o bem ou mal do país, alguns até passaram
pelo governo. Agora, em democracia, os meus filhos têm todos cursos
superiores, vêm de uma família de pessoas já altamente
qualificadas, instruídas e bem sucedidas, e são «trabalhadores do
conhecimento» Porém, têm tido consideráveis dificuldades na sua
carreira profissional, muito maiores do que os seus pais, vinte ou
trinta anos antes JNR:
Há
um número conhecido: 40000 desempregados com qualificações
superiores em Portugal. É próximo de 10% do valor do desemprego
actual. MM:
Também
há uma implicação que resulta disto. Vêm falar comigo e dizem:
estava a ouvir o professor, e pensei: como é que eu me hei-de safar
na vida? À
primeira vista, o que se recomenda ainda muitas vezes é uma
especialização precoce. O que é bom é o turismo, dizem. Ou o que
é bom é a informática, aí não precisa tirar o curso todo. Se
gosta de informática, aí vai ver o sucesso que tem ou então, se
tem qualidades para tanto, seja jogador de futebol. Eu julgo que
tudo isto pode ser terrível porque é um logro. Se o sujeito é
muito bom mas não adquire umas mínimas bases culturais, uma
capacidade de aprendizagem, uma capacidade de perceber o mundo em
que vive, de se orientar, não só à escala do país, mas sim, acho
que pode falar à escala do planeta, se não tem uma formação que
lhe dê capacidade em múltiplas direcções, arrisca-se de facto a
ter problemas muito sérios na sua vida. |
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