JNR:

Acho que tocou dois pontos que talvez fosse interessante desenvolver.

Fala-se muito das organizações aprendentes, mas eu agora queria continuar a insistir na ideia do indivíduo aprendente. O que é este tipo aprendente? Há dois ou três anos, estive em pós-graduações, a fazer umas entrevistas, e a maioria das pessoas que estavam a frequentar estas pós-graduações, estavam a trabalhar em call center. Na sua maior parte eram mulheres. Além de serem licenciadas, já tinham feito algumas pós-graduações, e eu interrogava-me sobre as suas motivações. Estão aqui a tirar uma pós-graduação em Gestão estratégica? É fundamental para justamente podermos procurar outras oportunidades. De procurar outra carreira distinta. Esta é a noção que tenho do «Individuo Aprendente», em situações extremamente difíceis, a prosseguir nessa batalha.

Outro aspecto: quando a nova economia surgiu, houve muito a ideia de que era a tecnologia, o vector determinante. da questão, e com o tempo veio a perceber-se que o vector determinante desta economia, saida desta nova massificação da internet e da web, não é a tecnologia, mas sim o relacionamento entre as pessoas, ou a interactividade... Nalguns casos que conheço, é através desses networks que encontraram empregos em outros locais. Alguns casos que eu conheço foram para Barcelona, que deve ser hoje uma das cidades que está em alta, não é só no marketing como na atracção de pessoal talentoso, que quer fazer coisas, procurar novos tipos de emprego, etc.

Para continuar, vou pedir-lhe para falar um bocadinho mais sobre essa questão do individuo aprendente e que depois passasse para as organizações.

MM:

 Bem, eu começo, pelos indivíduos.Há aí um ponto que eu não referi.Obviamente, as pessoas interrelacionam-se e desenvolvem uma rede num universo que tem grandes potencialidades positivas de acordo com aquilo que a pessoa espera. Mas todos temos a percepção, e você também tem enquanto jornalista, de que uma das consequências de tudo isto, é que as cidades onde nós vivemos, ao contrário do que se possa supor, são homogeneas, são parecidas, todos dizem a mesma coisa. Mas mais profundamente, verifica-se que são muito heterogenias, muito diferenciadas, desde que possamos conhecê-las melhor. Realmente, nós gostamos de ser interactivos com pessoas interessantes, mas não é fácil encontrar pessoas ( e cidades) interessantes.

JNR:

Há uma solução técnica para esses problemas que são as comunidades.. Há os ambientes da moda, facilitados pela tecnologia. Há um caso curioso, um estudo recente, de um professor americano, que se chama Richard Florida., Estudou a relação entre a economia do conhecimento, e aquilo que ele chama a economia da diversidade. Encontrou um conjunto de novos indicadores, que para além dos da economia do conhecimento, conseguem visualizar porque determinados países, deram um salto muito rápido nos últimos dez anos. E todos falamos do caso da Irlanda, que é o chamado caso milagre, mas há outros casos que não são falados. Por exemplo, os países nórdicos, que destruíram completamente a antiga bandeira da riqueza europeia, os critérios que eram aplicados ao eixo que ia de Londres, atravessava a Alemanha, Paris em França até ao Norte de Itália, Esse eixo está perfeitamente desmantelado, já não responde na maioria dos indicadores de um modo tão satisfatório. O que ele verificou em muitos desses países, digamos assim, que emergiram da economia do conhecimento é a valorização da economia da diversidade. Aspectos que ele encontra em muitas cidades europeias, não só nos países nórdicos, até em Barcelona. Refere também espaços urbanos ou regiões, onde a diversidade e essa heterogeneidade de afirmação, de inovações, de carreira, de iniciativas, a étnica e civilizacional, esses cadinhos que criam o ambiente, que é estritamente favorável à fixação e à emergência de massa critica do conhecimento.

MM:

 Uma observação que tem a ver com a Escola Gestão do ISCTE. A nossa escola já tem cerca de 15 anos; começou por ser uma coisa pequena que organizava cursos de pós-graduação para a ordem dos engenheiros. Desde então., passaram por esta escola, alguns milhares que frequentam os mestrados ou as pós-graduações, pessoas muito diversas que conheço bem, incluindo indivíduos que vêm do exército, jovens oficiais, engenheiros que podem ser muito dotados do ponto de vista intelectual e pessoas interessadas pela cultura.

Temos também ex-alunos que aprenderam em Cantão ou em Macau, Maputo, ou São Vicente. Ou seja o universo dos nossos antigos alunos de pós-graduação e mestrado é um universo humano riquissimo, que a escola de gestão podia potenciar, no sentido de desenvolver alguma forma de conectividade entre estas pessoas para o beneficio de todos.

Uma coisa completamente diferente, mas que tem a ver com esta questão da comunicação entre as pessoas, resulta das novas possibilidades da comunicação utilizando as novas tecnologias. Mas, antes disso e para além disso, há características próprias da espécie humana que importa aqui realçar. Dispomos da linguagem que nos permite uma comunicação complexa, nós comunicamos uns com os outros, desde o princípio da espécie, de uma forma mais complexa e potencialmente mais inovadora do que qualquer outra espécie. Estas novas tecnologias hoje, dão possibilidade de intercomunicação, que são mais ricas, mais complexas, com maiores potencialidades do que já mais se concebeu. Dir-me-á para o bem ou para o mal, sem dúvida, mas concentremos agora no aspecto para o bem. E esta possibilidade de, através das novas linguagens, comunicarmos melhor uns com os outros. origina uma potencialidade de desenvolvimento unicamente humano que é extremamente rica.

JNR:

Justamente, um dos pontos interessantes da gestão do conhecimento, nestes últimos anos, foi a montagem das organizações ligadas a sistemas de software que permitem  modelar, acumular, cadastrar o conhecimento existente; isto é, tornam explicito uma certa parte do conhecimento existente nas organizações, até então oculto. Assisti a uma uma palestra em Londres, há unss anos, sobre este problema.. O orador contou um caso ligado à Shell, de experimentação dessas metodologias da gestão do conhecimento, Houve um determinado problema numa refinaria na Indonésia, e o decisor tinha que tomar certas decisões e, obviamente, foi à intranet da altura, digamos, ao depósito residual de conhecimento que havia ao tempo. No entanto a decisão que tomou foi de descobrir a quem é que isso já tinha acontecido, ou seja: qual é o fulano que eu devo contactar?. Foi na interacção dessa pessoa, de quem é quem, que esteve numa situação semelhante, que transmitiu a voz da experiência, que ele pode basear uma decisão. O que levou nomeadamente essa companhia a praticar regularmente uma nova atitude no sistema. O sistema em vez de ser organizado por palavra-chave passou a sê-lo por eventos, por acontecimentos. Como actuar de imediato e quem é que se deve contactar, que tenha experiência sobre esse assunto para poder aconselhar de imediato? Esta ideia é basilar: de facto, a gestão do conhecimento é gestão da relação entre as pessoas

MM:

 Quando me estava a falar disso, eu estava a pensar no caso da relação docente-discente: isto é, e no meio de isto tudo, para que é que serve a universidade tradicional? Eu tenho uma larga experiência de ensino, como é natural, como professor decano do ISCTE que sou. O que são as reuniões por exemplo de um conselho cientifico? É para discutir questões desta natureza que temos referido, com frontalidade, transparência, da confiança mútua? Pode ser que eu tenha tido azar mas, não foi nem é bem assim. Portanto, uma universidade no sentido tradicional, não creio que possa ser uma universidade aprendente. Idealmente eu gostaria de pertencer a uma universidade em que houvesse uma liderança que nos dissesse:::esta universidade vai ter uma estratégia para desenvolver o seu conhecimento na direcção tal, combinando elementos precisos para responder a questões precisas. E um processo interactivo largamente participado, estar-se comprometido num programa de desenvolvimento de conhecimento. Isto é utópico?

Nas origens do ISCTE houve alguma coisa disto, porque era uma instituição nova, não se subordinava ao projecto que vinha de cima, não estava sujeito a uma hierárquia e a coisa ia calmamente em termos de camaradagem, de convívio inter-activo, mesmo sem se falar nisso.

 Hoje, admito que haja alguma possibilidade neste sentido numa universidade local, uma universidade nova, nova no sentido literal do termo. O que é hoje, em regra, a universidade? A universidade é uma feudalização do conhecimento, são conjuntos de áreas «fortificadas» do conhecimento, numa postura que, como organização não tem muito a ver com a ciência, com o conhecimento. Portanto, na economia e na sociedade do conhecimento esta universidade apresenta-se como fóssil (aparentemente) vivo.

JNR:

A universidade da economia do conhecimento é um instrumento que aparece históricamente. Para poder gerir conhecimento da época. Havia uma elite que dominava esses interesses. Com o livro impresso, houve uma comunidade que soube gerir esses conhecimentos. A impressão do livro foi uma ruptura com a gestão do conhecimento da época. A questão que hoje se coloca é o novo enquadramento tecnológico que existe e a globalização que houve Aprende-se um pouco por todo o lado, a universidade tem uma concorrência por todo o lado. A universidade adaptou-se à massificação do papel impresso, do livro; a universidade não se poderá vir a adaptar a este novo contexto?

MM:

Há uma questão que acho interessante, mesmo apaixonante, que é a reinvenção da universidade alguns anos, foi publicado um relatório sob a égide Gulbenkian, coordenado por Immanuel Wallerstein, com o título «para abrir as ciências sociais, em que um dos pontos fortes era a questão das fronteiras disciplinares. Pprque este problema não é o mesmo mas está relacionado, respeita às fronteiras disciplinares, tem a ver com os catedráticos, os lugares do quadro, as carreiras que estão muito ligadas à componente disciplinar. Simplesmente, tão mau como a diferenciação disciplinar, é a grande confusão disciplinar. Enfim, na fase em que me encontro na percepção destes problemas, gostaria muito de conhecer experiências de universidades que surgem em contextos regionais ou locais novos, e que tenham simultaneamente a vertente empreendedora, que por seu turno possa ser ligada à dimensão aprendente. Aprendente e empreendedora, deveriam ser duas direcções estratégicas predominantes.

JNR:

Falemos, do caso dos Estados Unidos, não que seja o único exemplo, não que sejam os únicos detentores da verdade. Há dois movimentos interessantes, que o professor acabou agora de citar. São organizações aprendentes para professores, para professores doutorados, para doutoramentos, que se especializaram a levar esse conjunto de pessoas a outras pessoas, por exemplo a instituições universitário como no Novo México, o instituto de Santa Fé. Eles especializam-se de forma a serem uma comunidade que atrai professores de várias partes do mundo. Exploram áreas novas que são transversais como por exemplo a área do caos. Há esse fenómeno também interessante, de campus universitários que se ligaram estreitamente ao mundo económico O que se está a observar agora é que o novo tipo de ensino está muito dirigido aos professores, no sentido da sua elevação académica, mestrados, doutoramentos, etc, e é criar áreas transversais que possam seguir a investigação, e não só no ensino mas principalmente no ensino. É importante o papel dessas áreas transversais, por exemplo no campo da inteligência. Há dez anos atrás falava-se da inteligência artificial, hoje já não se fala mais disso. Era a ambição de colocar num computador a nossa forma de pensar. Se hoje se estuda os efeitos Santa Fé, são chamadas existências colectivas no comportamento de alguns eventos e têm descoberto capacidade de reflectir deles, formas de inteligência extremamente interessantes para aplicação do estudo das sociedades humanas concretas. Isto para dizer que há áreas novas  mais largas que de facto aumentam a capacidade da universidade do futuro, mais do que a questão empresarial.

MM:

 Em tempos, era presidente do ISCTE o Professor Afonso de Barros prematuramente falecido. Foi acusado de ser autoritário, mas tinha o mérito de ter uma estratégia bem definida para o ISCTE. Então surgiu a ideia dei criar novos cursos transversais, para evitar o que já se receava e veio a acontecer:: cada um a ir para seu lado, cuidar do seu jardim. Dentro de uns cursos surgiam outros, numa espécie de cissiparidade e tentou-se evitar essa separação, ao criar vectores de aglutinação, portanto, cursos interdisciplinares. Não funcionou porque no fundo ninguém estava interessado nessa estratégia. O que levanta outra questão: além dos ingénuos como nós, quais são os interesses que podem gerar movimentos desta natureza?

JNR:

 Sei que há uma questão que o tem preocupado: dentro dessa globalização complexa que está a decorrer. Nota-se a afirmação de vários focos da opinião, o conhecimento já não é só a universidade  pois há as empresas, também há a afirmação da opinião pública como produtora do conhecimento. Há a emergencia de diversos tipos de protagonistas nesse campo, não só, do ponto de vista da politica mas da sociedade global. Toda esta diversidade está de facto a produzir conhecimento. Onde é que o professor acha que isto pode conduzir? O que acha desta diversidade? Qual é a sua riqueza e importância? O que é que o tem mais marcado neste novo contexto?

MM:

 Também é uma das minhas questões favoritas, o que se compreende sobretudo para um sujeito que vem do catolicismo, e ai entrei, não por herança cultural, não foi pelos meus pais, mas foi uma opção minha, numa altura em que o catolicismo aparecia com uma caracteristica inovadora. Estou a falar dos anos 60, quando esta questão da ideologia no sentido de «visão do mundo» se punha talvez de uma maneira mais simples: isto é, iamos ao livro do catolicismo e tinha lá as respostas para meia dúzia de questões fundamentais, portanto era fácil. Ou era marxista ou era cristão, nesta parte do mundo, e depois ainda havia umas nuances mas, enfim, as escolhas eram claras. Depois, já manter as escolhas era difícil. Estou a falar de uma situação de há 40 anos, da situação dos grandes paradigmas ideológicos, morais, do sentido da vida, dessas coisas. Hoje, julgo eu, tudo isso é mais complexo e mais difuso, quer dizer, há essencialmente práticas que se vão generalizando e em que o sistema de valores (ou a falta deles) está implícito.,. O Jorge deve ter conhecimento do que se passa na Shell. Para mim é extremamente divertido, porque a Shell tinha uma estratégia definida, estavam sempre a adaptar-se à última vaga ética, dar o devido lugar às mulheres, às diferentes étnias, às diferentes tendências sexuais, o que é complicado dentro de uma organização, imagino. E de repente, numa organização tão exemplar dentro dos paradigmas  éticos, descobre-se que havia  grandes aldrabices nos cálculos. Como é que eu vejo o problema? Nesse livro que estou a escrever, termino a dizer que tudo isto tem diferentes paradigmas, e que ao longe no horizonte da História, tudo talvez convirja para um paradigma humano, partindo do principio que a nossa natureza é a mesma, quer seja a cor da pele, etc. O importante, para a espécie humana, será segregar um paradigma humano também «baseado no conhecimento». Mas talvez, pelo caminho, o melhor que se possa conseguir seja uma coexistência de diferentes paradigmas culturais e civilizacionais.

JNR:

Digamos que cada um dos vários paradigmas influência a história porque é o agir das pessoas.

Entrevista a Mário Murteira de Jorge Nascimento Rodrigues,  no âmbito do curso de formação de tutores em e learning  realizado no INDEG.

Publicado em Economia Global e Gestão 2/2004

Anterior

 

 


img3.gif

 

A Ideologia Portuguesa

O Porco Transitário de Luanda

A geração da utopia, trinta anos depois

Globalização, conhecimento e paradigma humano  

 A insustentável Leveza do ser Europeu

Regresso a Bissau

O Elefante, o Dragão e o Urso

Universidades Periféricas?

Boca de Tubarão

As Hortas da IC19

Desafios ao Sindicalismo no século XXI

Pobres dos Ricos?

Cidadania e Democracia

Até Breve, Senhor Zuca

A Caminho de uma Nova Ordem Económica?

Futebol e Rugby na África do Sul

O Risco Sistémico

Angola vista de Baixo

Esta noite sonhei com a Crise

Gestão da Economia em Tempo de Crise

 Perspectivas futuras da economia Portuguesa um ensaio exploratório 

 

 



 I Downloads

Copyright © Netbug, Lda . Todos os direitos reservados . Optimizado para Microsoft Internet Explorer na resolução 1024 x 768