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Há ou não um
management português? Não creio que
exista um «management português». Mas admito a existência de
certas características sócio-culturais semelhantes na Europa do
Mediterrâneo. Tais
como: improvisação no lugar da programação; dificuldade em tomar
decisões oportunas em condições de risco e incerteza; «calor
humano» em lugar de secura e frieza nas relações inter-pessoais;
mas também falta de frontalidade e alguma hipocrisia nessas relações;
importância de laços familiares nos negócios A minha possível
contribuição respeita à actividade de professor que exerço há
cerca de quarenta anos, devendo proferir em Outubro de 2003 a minha
«lição de jubilação». Já passaram pelas minhas aulas alguns
milhares de alunos, não só em Ao longo destas
quatro décadas tenho sempre «ensinado Economia», mas aquilo que
eu hoje digo nas aulas tem muito pouco a ver com o que dizia,
digamos, há vinte anos. Mudaram os
temas dos cursos mas, naturalmente, também modifiquei a minha
abordagem desses temas. Noto também
que só há cerca de quinze anos transitei de um Departamento de
Economia para um Departamento de Gestão e passei a interessar-me
– embora Esta viragem também correspondeu a
um certo desencanto pela ortodoxia do pensamento económico hoje
dominante, que em muitos aspectos é uma boa maneira, não de ver
melhor a realidade, mas antes de desviar o nosso olhar do que mais
importa nas sociedades actuais. Fiquei feliz ao encontrar simpatia e compreensão neste meu ponto de vista,
em autores que conheci pessoalmente como Immanuel Wallerstein, Peter
Drucker e Charles Handy. Julgo que tenho
procurado e conseguido dar uma visão actualizada da economia
mundial, e das forças e tendências que a conduzem, aos meus
alunos, mostrando ao mesmo tempo que a «gestão» das organizações
não é problemática estritamente empresarial e mercantil, embora
esta seja de longe a perspectiva dominante. Pois é mais geral do
que isso e pode envolver áreas tão variadas Na sua opinião,
qual foi a influência da gestão norte-americana nos últimos
quinze anos, no nosso país? A influência
tem aumentado, aliás em paralelo com a crescente presença
norte-americana no mundo em que vivemos, em todos os aspectos, do
militar ao cultural e ao económico. Mas isso não significa afirmar
que, na prática, e neste domínio, essa influência seja hoje muito
grande. Muito do que se vê e ouve, entre nós, ecoando teorias e práticas
americanas, é apenas, literalmente, «show business» Devo reconhecer
também que o universo cultural norte-americano é muito rico e
diversificado, o que significa que nele podemos encontrar autores
com pontos de vista muito diversos, até opostos, mesmo nas áreas
do management. É bom não
esquecer que os EUA existem apenas há pouco mais de dois séculos e
que nasceram «globais» antes do tempo em que tudo se tornou ou está
em vias de se tornar global. Parece que ainda acreditam em Deus e no
«Progresso», Mas é também
certo, como sugestivamente escreveu Aldous Huxley, celebrado autor
de «Admirável Mundo Novo», que há no americano uma personalidade
dupla , o Mr. Jeckyll e o Mr. Hyde, um médico e um monstro, sendo o
primeiro uma espécie de Jimmy Stuart dos filmes de Frank Capra,
convicto e ingénuo defensor da democracia e dos direitos humanos e
o segundo especialista em marketing, doutorado em Psicologia Social
e especialista na manipulação dos seres humanos para conseguir
maiores lucros para o seu patrão. (Repito: estou
apenas a citar Huxley, escrevendo há cerca de meio século…Talvez
hoje tenha mais razão do que nunca.) Quais
são as suas grandes referências no management? E quais são os
seus temas favoritos hoje em dia? Como economista
situado face aos problemas da gestão das organizações, tenho dois
autores como referências básicas: Schumpeter, que intuiu o
grandioso (possível) papel do empresário como «entrepreneur»
inovador; Peter Drucker, uma enciclopédia viva, mas que é muito
mais do que um académico interessado na Gestão, pois que exibe uma
riquíssima combinação de cultura e experiência prática. Nos últimos
anos, tenho-me interessado particularmente pela economia e gestão
do conhecimento e Drucker é (também ) uma referência fundamental
neste aspecto, tal Os meus temas
favoritos, hoje, são mais precisamente a aprendizagem, a inovação
e o empreendedorismo Nestas matérias,
o que mais me tem chamado a atenção em Portugal é o aparecimento
duma nova categoria de pequenos empresários, ou de trabalhadores
independentes, geralmente nos serviços, e que são os tais «trabalhadores
do conhecimento» de que hoje tanto se fala. São jovens que se
organizam para prestar serviços informáticos, desenvolver
projectos culturais, ou projectos com meios áudio-visuais, fazer
estudos de mercado ou lançar imaginativas campanhas de marketing,
conceber novas técnicas de jardinagem ou novas propostas
no campo do turismo, etc. Noto que hoje não
são apenas expoentes portugueses no mundo global personalidades Que casos
internacionais citaria Na minha experiência
pessoal, os «casos» mais interessantes que pude ver de perto
referem-se a empresas multinacionais instaladas na Visitei,
inquiri e comparei empresas norte-americanas, alemãs, japonesas e
mesmo duas portuguesas. Uma parte dos resultados da análise está
publicada no livro colectivo Hong Kong and Um caso
particularmente interessante, aliás muito conhecido, que estudei
foi a empresa Hovione, de relevo mundial no domínio dos anti-bióticos
e que embora sediada em Foi também
interessante o projecto que coordenei sobre a emergência dum novo
empresariado africano nas antigas colónias portuguesas em Daqui confirmei
a ideia de que a economia de mercado como «paradigma normativo»
requer, para ter êxito, condições sócio-culturais e políticas
que de todo não se verificam em grande parte do planeta. A maior lição
que eu tirei dos «casos» que estudei na E numa
perspectiva mais macroeconómica, pude também apreciar, «por
dentro», digamos assim, aspectos da espantosa transição chinesa
para o mercado global, na era pós-maoista. Como
vê a realidade empresarial portuguesa? Já antes
referi aquilo que me surge mais positivo no presente panorama
empresarial português: o aparecimento dum empresariado jóvem,
feito de «trabalhadores do conhecimento», geralmente com suporte
nas novas tecnologias da informação e da comunicação, sobretudo
emergente nos serviços, com capacidade inovadora e também com
persistência suficiente para vencer toda uma série de factores
desfavoráveis na presente conjuntura portuguesa. O ambiente sócio-cultural
português, tão ou mais do que o ambiente económico, não é favorável
ao verdadeiro empreendedor. Há muito clientelismo na esfera política,
a mediocridade predomina nos centros de decisão, e há uma
atmosfera geral de desconfiança na sociedade portuguesa, incluindo
as instituições fundamentais da sua dimensão política e jurídica. No entanto, a
confiança em si mesmo, nos outros e na sociedade em geral, é
elemento indispensável do desenvolvimento da sociedade. Não disponho
de nenhuma receita para este efeito, mas creio que refiro a tarefa
principal a realizar nas próximas décadas no nosso País. E não
duvido que parte importante da tarefa passa pela reforma do sistema
educativo, em particular ao nível do superior. Não sei se
deva considerar a minha «primeira actividade na área de gestão»
a função que desempenhei quando era aspirante a oficial miliciano
do Serviço de Administração Militar, como adjunto do chefe da
contabilidade do Regimento de Infantaria 15 em Tomar, onde prestei o
meu serviço militar em 1956/57…Recordo que uma das minhas tarefas
na altura consistia em auxiliar o presidente do Conselho
Administrativo da unidade, um major interessado em práticas de
ilusionismo, a redigir em inglês encomendas de habilidades mais ou
menos sofisticadas, fornecidas por fabricantes especializados. As
habilidades podiam envolver cartas, cordas ou caixas de vários
tamanhos, se bem me recordo. As encomendas correspondentes tinham de
ser redigidas em inglês, dirigidas aos fabricantes especializados e
eu fazia-o por conta do major. Este também praticava hipnotismo e
constava na unidade que, com as suas experiências, tinha já
provocado que alguns soldados fossem tratar-se no hospital… Também
desempenhei funções de oficial provisor em manobras, responsável
pela alimentação da unidade, e passei maus bocados nessas guerras,
mesmo que estivéssemos em paz. Parte considerável das rações de
campanha era roubada, nos circuitos complexos da distribuição, e o
que sobrava era sempre insuficiente para as necessidades. Valia-me,
claro, um hábil segundo sargento que me ajudava na tarefa em que os
portugueses eram – e continuam a ser – mais competentes: «desenrascar-se»! Mas, falando
seriamente, para além de professor, a actividade mais interessante
que exerci enquanto gestor foi talvez a minha ocupação
predominante nos últimos anos, No essencial,
vejo-me continuando a fazer o que quase sempre tenho feito, isto é,
estudando, escrevendo e dando cursos em diferentes sítios. Espero
poder continuar a dar a minha colaboração à Escola de Gestão do
ISCTE que, com outros ajudei a criar e que julgo ter um futuro
promissor, apesar de todas as incertezas e dificuldades que
presentemente rodeiam o ensino universitário público no nosso País. Na sua opinião,
qual a evolução provável da Gestão em O contacto que
tenho mantido com sucessivas gerações de estudantes de gestão,
quer ao nível da graduação quer ao nível da pós-graduação,
convence-me que a nossa sociedade está a mudar profundamente e que
a substância humana de Portugal é francamente melhor do que
aparenta, nos seus aspectos mais visíveis e que os media mais
promovem. Julgo que o «gap» ideológico que sentimos em 9/Agosto/03 |
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