Creio legítima a pretensão de alguém que profissionalmente se ocupou durante cerca de meio século da análise da economia e da sociedade contemporâneas, chegado ao luminoso crepúsculo da jubilação, se interrogar: «afinal, qual é a moral da história do meu tempo»?

Ou dito doutro modo, talvez menos provocador: como interpretar, no essencial, as grandes transformações ocorridas no capitalismo na segunda metade do séc. XX, mesmo que tais transformações, em rigor, sejam amorais, como toda a História?

Sentimos, os que nasceram na primeira metade do século XX, mas que só adquiriram plena consciência do seu tempo na segunda, que «o mundo mudou» (uma vez mais) e que o último quartel do século está separado do anterior por alguma profunda descontinuidade:

Então, o que se passou «na verdade», para além das grandes imagens ideológicas que nos foram sendo projectadas no curso dos acontecimentos e sendo parte integrante desse mesmo curso, este além do mais também fabricante dos seus próprios espelhos?

Serão tais imensas perguntas prova da irremediável e desmesurada presunção por parte de quem se atreve a formulá-la? Ainda por cima neste Portugal aparentemente tão distante do fluir do tempo presente, ou numa linguagem mais antiga, tão alheio à corrente da História?

É possível. Mas confesso a minha impaciência: não estou certo de dispor (ainda) doutra vida para procurar as possíveis respostas àquelas questões e continuo cheio de curiosidade por encontrá-las.

Entremos então no assunto.

Nos anos 1950 e 1960, a «Economia do Trabalho» era uma disciplina em crescente afirmação, nos EUA e na Europa, e ocupava-se dos grandes problemas económicos do mundo do trabalho, como sindicalismo, salários e repartição do rendimento, emprego e desemprego, etc. Em Portugal, o tema foi ensinado pela primeira vez no Instituto de Estudos Sociais, antepassado do actual ISCTE, em meados dos anos 1960 e coube-me essa honrosa tarefa, tendo então publicado um livro baseado no meu curso, precisamente sob o título Economia do Trabalho. A minha tese de doutoramento em Economia na Universidade Técnica de Lisboa respeitava à «Teoria da determinação do salário na indústria», ainda no âmbito da mesma disciplina, algo subversiva no Portugal dito «corporativo» de então.

Quarenta anos volvidos, fala-se antes da «economia do conhecimento», e o termo trabalho parece ter-se tornado obsoleto, ao menos nos países habitualmente considerados como desenvolvidos.

Podemos então perguntar: neste meio século, o que aconteceu ao trabalho e às classes ditas «trabalhadoras» no chamado Primeiro Mundo, o dos países capitalistas «desenvolvidos»?

E como evoluiu a relação capital /trabalho no processo capitalista de criação e repartição de valor? Ocorrem facilmente ao nosso espírito outras questões relacionadas, tudo fazendo parte dum núcleo problemático que irei seguidamente abordar.

Vou procurar algumas pistas para a possível resposta a tão imensas questões, resposta que não é simples nem fácil, e tentando situar o «trabalho» no contexto do sistema económico que determinou a sua génese, isto é, o capitalismo e cuja evolução vertiginosa e triunfal, ao menos no olhar dos triunfadores, caracteriza a economia mundial no último meio século.

Mais precisamente, abordarei (embora de forma irremediavelmente telegráfica) os seguintes tópicos:

   - A evolução da estrutura da produção e do emprego, ou se se preferir, a transformação na engrenagem ou «modelo» de crescimento económico;

  - A emergência do «conhecimento» como factor determinante da competição no mercado global;

 - A aceleração do processo de globalização da economia mundial;

E rematando tudo isto

 - A incidência das tendências anteriores na passagem do «mercado de trabalho» ao «mercado do conhecimento» como mecanismo (por hipótese) determinante da acumulação de capital no capitalismo desenvolvido.

Comecemos pelo princípio, pelo princípio da própria da Ciência Económica

2 - Sobre a teoria do valor trabalho

É sabido que a «teoria do valor trabalho» constitui preocupação central dos economistas clássicos, sendo em Marx que essa «teoria» foi levada, por assim dizer, até às últimas consequências não só teóricas mas também filosóficas e políticas. No essencial, recordemos que a teoria marxista do valor dizia o seguinte: o valor das mercadorias reside no trabalho directa e indirectamente necessário à sua produção; o valor do próprio trabalho, melhor dito da «força de trabalho», corresponde ao valor do mínimo de subsistência do trabalhador, ou seja, o número de horas de trabalho necessário para produzir aquilo de que o trabalhador necessita para assegurar a sua subsistência e reprodução.

Seguinte

 

 


img3.gif

 

Peter Drucker, a economia e a sociedade do conhecimento

Celso Furtado e o Estruturalismo Latino-Americano

On a Slow Boat to China

A Ideologia Portuguesa

O Porco Transitário de Luanda

A geração da utopia, trinta anos depois

Globalização, conhecimento e paradigma humano  

 A insustentável Leveza do ser Europeu

Regresso a Bissau

O Elefante, o Dragão e o Urso

Universidades Periféricas?

Boca de Tubarão

As Hortas da IC19

Desafios ao Sindicalismo no século XXI

Pobres dos Ricos?

Cidadania e Democracia

Até Breve, Senhor Zuca

A Caminho de uma Nova Ordem Económica?

 

 



 I Downloads

Copyright © Netbug, Lda . Todos os direitos reservados . Optimizado para Microsoft Internet Explorer na resolução 1024 x 768