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Creio legítima a pretensão de alguém que
profissionalmente se ocupou durante cerca de meio século da análise
da economia e da sociedade contemporâneas, chegado ao luminoso crepúsculo
da jubilação, se interrogar: «afinal, qual é a moral da história
do meu tempo»? Ou dito doutro modo, talvez menos provocador:
como interpretar, no essencial, as grandes transformações
ocorridas no capitalismo na segunda metade do séc. XX, mesmo que
tais transformações, em rigor, sejam amorais, como toda a História? Sentimos, os que nasceram na primeira metade do século
XX, mas que só adquiriram plena consciência do seu tempo na
segunda, que «o mundo mudou» (uma vez mais) e que o último
quartel do século está separado do anterior por alguma profunda
descontinuidade: Então, o que se passou «na verdade», para
além das grandes imagens ideológicas que nos foram sendo
projectadas no curso dos acontecimentos e sendo parte integrante
desse mesmo curso, este além do mais também fabricante dos seus próprios
espelhos? Serão tais imensas perguntas prova da irremediável
e desmesurada presunção por parte de quem se atreve a formulá-la?
Ainda por cima neste Portugal aparentemente tão distante do fluir
do tempo presente, ou numa linguagem mais antiga, tão alheio à
corrente da História? É possível. Mas confesso a minha impaciência:
não estou certo de dispor (ainda) doutra vida para procurar as possíveis
respostas àquelas questões e continuo cheio de curiosidade por
encontrá-las. Entremos então no assunto. Nos anos 1950 e Quarenta anos volvidos, fala-se antes da «economia
do conhecimento», e o termo trabalho parece ter-se tornado
obsoleto, ao menos nos países habitualmente considerados como
desenvolvidos. Podemos
então perguntar: neste meio século, o que aconteceu ao trabalho e
às classes ditas «trabalhadoras» no chamado Primeiro Mundo, o dos
países capitalistas «desenvolvidos»? E
como evoluiu a relação capital /trabalho no processo capitalista
de criação e repartição de valor? Ocorrem facilmente ao nosso
espírito outras questões relacionadas, tudo fazendo parte dum núcleo
problemático que irei seguidamente abordar. Vou
procurar algumas pistas para a possível resposta a tão imensas
questões, resposta que não é simples nem fácil, e tentando
situar o «trabalho» no contexto do sistema económico que
determinou a sua génese, isto é, o capitalismo e cuja evolução
vertiginosa e triunfal, ao menos no olhar dos triunfadores,
caracteriza a economia mundial no último meio século. Mais
precisamente, abordarei (embora de forma irremediavelmente telegráfica)
os seguintes tópicos:
- A evolução da estrutura da produção e
do emprego, ou se se preferir, a transformação na engrenagem ou «modelo»
de crescimento económico; -
A emergência do «conhecimento» como factor determinante da
competição no mercado global; -
A aceleração do processo de globalização da economia mundial; E
rematando tudo isto -
A incidência das tendências anteriores na passagem do «mercado de
trabalho» ao «mercado do conhecimento» como mecanismo (por hipótese)
determinante da acumulação de capital no capitalismo desenvolvido. Comecemos
pelo princípio, pelo princípio da própria da Ciência Económica 2
- Sobre a teoria do valor trabalho É sabido que a «teoria do valor trabalho»
constitui preocupação central dos economistas clássicos, sendo em
Marx que essa «teoria» foi levada, por assim dizer, até às últimas
consequências não só teóricas mas também filosóficas e políticas.
No essencial, recordemos que a teoria marxista do valor dizia o
seguinte: o valor das mercadorias reside no trabalho directa e
indirectamente necessário à sua produção; o valor do próprio
trabalho, melhor dito da «força de trabalho», corresponde ao
valor do mínimo de subsistência do trabalhador, ou seja, o número
de horas de trabalho necessário para produzir aquilo de que o
trabalhador necessita para assegurar a sua subsistência e reprodução. |
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