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O «segredo» da acumulação do capital inerente ao modo de produção capitalista reside na «mais valia», ou seja, a diferença entre o valor da mercadoria apropriado pelo capitalista e o valor da força de trabalho que ele paga ao trabalhador-proletário. Nisto residiria também a exploração do trabalhador assalariado e o cerne da luta de classes inerente ao modo de produção capitalista. Não me interessa fazer agora história do pensamento económico, nem a exposição crítica do marxismo: quero apenas recordar que aquela «teoria» do valor vigorou – no sentido de ser objecto ou inspiração de importante controvérsia entre as principais correntes de pensamento da época – pelo menos um século, e ainda nos primeiros anos 1970, o professor do MIT e prémio Nobel, Paul Samuelson, escrevia importante artigo procurando a crítica definitiva do famoso problema da «transformação dos valores em preços de produção». Tratava-se de mostrar que a concepção marxiana do valor não poderia servir de fundamento para a explicação do mecanismo de preços na economia de mercado, coisa que Marx tentou mas não conseguiu fazer, nem ninguém depois dele, por ser exercício logicamente impraticável, dados os seus pontos de partida. .. Num livrinho então famoso de Piero Sraffa, publicado em 1960, e um tanto pomposamente intitulado « A produção de mercadorias por mercadorias – prelúdio a uma crítica da Ciência Económica» ( original inglês editado pela Cambridge University Press), esse autor mostrou implicitamente em que residia o problema da definição dum padrão do valor das mercadorias. Problema que afinal tem semelhança com o da ponderação das componentes dum índice de preços, ou ainda o cálculo dos chamados termos de troca na medição de valores relativos, por exemplo entre preços de produtos primários e manufacturados ou entre estes e preços de serviços «intensivos em conhecimento», como serviços de educação e saúde. Como se sabe, a medida do peso dos sectores primário, secundário e terciário na actividade económica, ou no produto interno duma economia nacional, além do mais, requer a estimativa desses «termos de troca» ou valores relativos. Está fora de causa, de qualquer modo, a medição dum «valor absoluto» das mercadorias, como Marx pretendeu. 3 - Do modelo Feldman-Mahalanobis ao modelo de Paul Romer na explicação do crescimento económico Pode também dizer-se que, por esse tempo, terminava uma fase do desenvolvimento do sistema capitalista em que o operariado da indústria, o sindicalismo operário e, mais geralmente, o processo de industrialização, tinham constituído peças centrais da engrenagem ou do «modelo» de crescimento económico. Este era, na prática e na teoria que pretendia interpretá-la e dar-lhe sentido, acumulação de capital material, investimento em equipamentos ou máquinas com «progresso técnico incorporado», como então se dizia. O extremo quase caricatural deste modelo foi a experiência soviética baseada na indústria pesada e bem descrita, a nível teórico, no chamado modelo Feldman-Mahalanobis, muito citado por economistas do Terceiro Mundo, nos anos 1960/70, como fonte de inspiração da estratégia «auto-centrada» de desenvolvimento nacional. O modelo mostrava como o investimento nas indústrias produtoras de bens de capital, mesmo com sacrifício imediato do consumo, permitia maiores ritmos de crescimento a longo prazo e, por essa via, também maiores níveis de consumo.Tratava-se, como também se escreveu na época, de desenvolver «indústrias industrializantes», isto é, uma estrutura industrial capaz de reproduzir-se e alargar-se indefinidamente. Mesmo em Portugal, ao tempo de Salazar, um autor muito conceituado em matéria de política industrial, o Eng.º Ferreira Dias, escrevia em livro que foi famoso, «Linha de Rumo», onde afirmava que um país sem siderurgia… «é uma horta». A fase em referência cobrira um período de cerca de 30 anos posterior ao termo da Segunda Guerra Mundial e nela ocorreu, além do mais, o apogeu do sindicalismo nos EUA, do trabalhismo e da social democracia na Europa e também o período mais crítico da chamada guerra fria, «guerra» que passaria definitivamente à História, como se sabe, já no termo dos anos 1980, por colapso dum dos contendores, a União Soviética. É neste tempo que se pode considerar o sindicalismo «a grande força conservadora do sistema capitalista», pois que o sindicalismo integra os trabalhadores na sociedade capitalista, permitindo a expressão e satisfação das suas reivindicações. Num sentido próximo, Galbraith chama-lhe «poder compensador» . E na verdade, a parte do trabalho no rendimento nacional nalguns dos países capitalistas mais desenvolvidos aumenta, em lugar de se manter sensivelmente estável num período longo, facto que surpreendera o próprio Keynes , ou de se reduzir, como parece suceder nas últimas décadas . Que novas tendências no sistema económico dominante se afirmam desde então, isto é, a partir do último quartel do século passado? E em particular na esfera das relações de trabalho nos países desenvolvidos? E que significado podemos atribuir ao ano de 1974, não por ter sido o da nossa «revolução dos cravos», mas por ter marcado dalgum modo – como aliás foi sugerido por um autor americano – o fim duma época do capitalismo e o começo de outra? Simplificando muito, mas procurando não sacrificar nada de essencial, foram as seguintes, as grandes tendências a registar: -Transnacionalização, no sentido de crescerem rapidamente as ETN (empresas transnacionais) e os fluxos internacionais de capitais, designadamente do Investimento Directo Externo (IDE), com presença gradualmente mais significativa na formação de capital dos países mais desenvolvidos e também nas relações económicas internacionais. |
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