4 - Do mercado de trabalho ao mercado do conhecimento

Uma análise interpretativa das tendências referidas conduz-nos a comparar a natureza de dois mercados que teriam a função principal no processo de acumulação nas duas fases do capitalismo que referi, a primeira com crescimento «baseado» na indústria, a segunda com crescimento «baseado» no conhecimento.

No primeiro caso seria o mercado de trabalho que desempenharia o papel principal na acumulação, e daí também a sua importância crucial no confronto de classes e no debate ideológico; no segundo, teríamos um outro e novo «mercado» muito específico, onde interagem uma «procura» e uma «oferta» de conhecimento, a desempenhar papel equivalente.

Para justificar a afirmação é necessário determo-nos um pouco sobre a natureza desse «mercado do conhecimento»

A procura de conhecimento por parte das empresas decorre do imperativo para inovar resultante da competição no mercado global. Por inovação, considere-se a definição aceite pela OCDE : alterações significativas em produtos, processos, modos de organização e posicionamento competitivo da empresa. Por esta última expressão designa-se, por exemplo, a passagem da internacionalização pelo comércio, à transnacionalização do investimento da empresa, ou a adopção de novas estratégias de parceria (incluindo o chamado networking), fusões ou absorções.

Como é satisfeita essa «procura» de conhecimento necessária para apoiar o processo inovador ao nível empresarial?

Pode sê-lo, como é óbvio, no âmbito da empresa, em particular pela actividade própria de I&DE (investigação e desenvolvimento experimental). Mas na maior parte dos casos sê-lo-á «fora»

da empresa, através da prestação de serviços por outras entidades, que poderão ser empresas de serviços especializados – em informática, consultoria em gestão, marketing, formação e gestão de mão-de-obra, I&DE, etc. – ou centros de investigação das universidades ou do próprio estado. É de notar a importância dominante (também nesta actividade) de grandes firmas transnacionais , que ocupam grande parte  deste «mercado» não só nos países desenvolvidos, mas também dos medianamente desenvolvidos como Portugal ou dos «menos desenvolvidos» como Moçambique . A especificidade deste mercado, decorre da própria especificidade do objecto imaterial transaccionado, o conhecimento. Na maior parte dos casos, esse conhecimento resultará da actuação conjunta ou da cooperação entre a «procura» e a «oferta» e o preço não constitui o resultado dum processo gradual de negociação, ou dum movimento mais ou menos rápido de ajustamento de planos entre compradores e vendedores, como se observa na generalidade dos mercados: a questão fundamental reside na adequação do conhecimento produzido ao problema posto e essa adequação resultará muitas vezes do estreitamento duma relação cooperativa, assente na confiança mútua entre a «oferta» e a «procura» que conjuntamente procuram solução para certo problema ou resposta para certa questão.

Sendo assim, justifica-se ainda falar de «mercado» de conhecimento? Creio que sim, e por várias razões.

Esse mecanismo de produção de conhecimento é mercantil, pelo menos num sentido: o conhecimento não é procurado como um fim em si (motivado pela «curiosidade pela Natureza», própria da condição humana, e também motor da sua evolução multimilenária na relação com o meio ambiente) mas como um instrumento do sucesso na competição no mercado.

Esta característica fundamental junta-se a outro facto: reputados autores como Drucker e outros , consideram que no capitalismo actual a fonte de riqueza é o conhecimento, e que a propriedade dos meios de produção não tem já papel central no funcionamento do sistema económico. E isso seria tão verdade para as organizações empresariais como também para os «trabalhadores do conhecimento», considerados individualmente. Chamando aprendizagem ao processo de aquisição do conhecimento, seja ao nível individual seja organizacional, e seja conhecimento codificado ou conhecimento tácito (não escrito, decorrente da experiência individual ou colectiva, até porventura imperfeitamente consciencializado), o acesso à riqueza material estaria pois intimamente ligado ao acesso a essa riqueza imaterial , ou seja do maior ou menor êxito no mercado das estratégias de aprendizagem dos indivíduos ou organizações.

Êxito, repito, medido pela apropriação de conhecimento valorizado pelo mercado.

Se esta leitura do capitalismo actual é credível, como suponho, haveria pois fundamento para assumir a secundarização do mercado de trabalho e a promoção do «mercado de conhecimento» como elemento mais influente na engrenagem da acumulação de capital e crescimento económico no capitalismo do séc. XXI, ao menos no «core» ou núcleo duro desse sistema, núcleo por seu turno determinante da evolução de todo o sistema mundial.

 

5 - Como interpretar então essa grande transformação no sistema capitalista que nos conduziu da «economia do trabalho» à «economia do conhecimento»?

Á primeira vista, trata-se duma evolução que manifesta as virtualidades positivas da economia de mercado.

Em última análise, seria a procura expressa livremente pelos consumidores que cria o espaço, ou a razão de ser, para o processo inovador e, por esta via, a investigação científica e tecnológica vai apoiando devidamente o processo. Por seu turno, é este relacionamento que permite o impulso da própria actividade de I&DE, que pode tornar-se afinal um investimento altamente lucrativo

 

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