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O último quartel do século XX, no termo do segundo milénio
da era cristã, iniciou um tempo de rápidas transições, algumas
inesperadas, mas todas de destino incerto. O começo do século XXI,
com a generalização e intensificação do terrorismo, num contexto
de globalização económica, ideológica e cultural, dominada pela
presença hegemónica dos EUA, acentua a percepção da incerteza e
a descrença na inevitabilidade do «progresso» Ora, esta ideia de
progresso foi considerada a grande força propulsora do Ocidente
que, com maior vigor, se exprimiu nas revoluções americana e
francesa do séc. XVIII. Estamos pois nesta fascinante «esquina dos milénios»,
olhando para o caminho que já passou e enxergando aquele que começamos
a percorrer, tentando perceber, ao mesmo tempo, «donde vimos» e «para
onde vamos». E afinal olhando para um lado, podemos perceber melhor
o outro lado do trajecto. Na passagem do século XX ao XXI, alguns grandes factos e
tendências, bem como alguns intérpretes desses acontecimentos,
justificam particular atenção, pois nos abrem preciosas janelas
para o entendimento do nosso tempo, quer do barulhento tempo planetário
quer do discreto apesar
das peripécias, tempo português. Duns e outros falaremos nestas crónicas, começando por um
grande profeta optimista do mundo pós-industrial, Peter Drucker.
Um
admirador da diversidade Peter Drucker comemorou em Novembro último o seu 95º
aniversário, tendo publicado 35 livros.. Há cerca de três anos,
na companhia do jornalista Jorge Nascimento Rodrigues, pude conhecê-lo
e conversar com ele algumas horas na sua residência em Claremont,
Califórnia, e verificar como é gratificante encontrar alguém em
que «muita vida» é, além do mais, sinónimo de muita sabedoria.
Claro que uma coisa não implica necessariamente a outra. Falo da
verdadeira sabedoria, que é feita de saberes vividos, mais do que
saberes concebidos E o facto de Drucker ser um escritor brilhante e
prolífico não garante, de modo algum, que ele escreva tudo quanto
sabe. Com a morte de cada ser humano morre também um particular «conhecimento»
do mundo; a perda dos vivos, neste sentido, é tanto maior quanto
maior é a envergadura desse particular conhecimento. A conversa com
uma personalidade como Drucker, assim, é a conversa com imensa «sabedoria
em estado vivo», bem vivo apesar da sua idade quase centenária. De notar que Drucker nasceu, tal como Schumpeter, na Áustria
. Ambos, tendo emigrado para os EUA,
naturalizaram-se.norte-americanos. Drucker teve a possibilidade de
conhecer pessoalmente os dois maiores economistas da primeira metade
do século passado, Keynes e Schumpeter. Sabendo-se que estes últimos
nasceram ambos no ano da morte de Marx (este viveu em 1818-1883), não
podemos evitar o sentimento de que estes quatro homens, Marx,
Schumpeter, Keynes e Drucker são testemunhas, intérpretes e
actores principais, segundo visões e talentos muito diversos e próprios,
do desenvolvimento histórico do moderno capitalismo. Dir-se-ia que
um Deus de suprema sabedoria incumbiu os quatro de produzir e gravar
«grandes reportagens» sobre tempos verdadeiramente
desconcertantes. Um dos livros mais fascinantes de Drucker, e segundo ele próprio,
o que mais prazer lhe deu a escrever, é Adventures of a Bystander
( traduzido para português, em edição da Difusão
Cultural, sob o título infeliz Memórias de um economista, infeliz
pois que Drucker nunca se considerou «economista). O autor escreve
no Prefácio a esse livro: Há uma eternidade ensinei religião e gostei muito. No
entanto, nunca soube o que fazer da teologia. Asseguram-me que
existem 35.000 diferentes espécies de moscas. Mas, se os teólogos
levassem a sua avante, só haveria uma única, a verdadeira Mosca.
Ora, o Criador glorifica-se na diversidade» A obra de Drucker revela isto mesmo: o contínuo
deslumbramento desse bystander com o espectáculo do desfile das
personagens reais que encontra no amplo campo da sua visão, numa
existência intensa e movimentada. Deslumbramento, por exemplo,
perante a sua própria avó, senhora de vastos talentos, que observa
com ternura e ironia. Essa avó sabiamente aconselhava as netas,
sempre que saíssem, a levar roupa interior limpa, «pois nunca se
sabe o que pode acontecer…» A
gestão como prática Um tema controverso e familiar aos professores de Gestão
reside na própria natureza daquilo que «ensinam» ou julgam
ensinar. A Gestão não é uma Ciência, só se pode aprender pela
experiência e aquilo que os managers
realmente fazem ( como analisou Mintzberg), terá pouco a ver com
aquilo que se ensina nas Escolas de Gestão. Drucker, em entrevista
a J.N.Rodrigues (ver em http//www.gurusonline.tv
), diz convictamente que a gestão
é uma prática, como «a medicina ou o direito». No entanto, quem
o diz reconhece ter sido o primeiro professor de Gestão nos EUA em
1949/50 na Graduate Business School da Universidade de Nova Iorque
Isto, apesar de confessar sentir-se mal no ambiente universitário típico,
«cheio de pequenos feudos e estúpidas intrigas», nas suas próprias
palavras. Lá também é assim, consolemo-nos com essa ideia… Pessoalmente, confesso que esta ambiguidade é um dos
atractivos do management como matéria de ensino, investigação
e…também como profissão. Tive ocasião de dizer isto mesmo ao
nosso autor, confessando-me de certo modo como «economista
arrependido», isto é, alguém que continua profundamente
interessado pela dimensão económica das sociedades mas que
considera estar melhor situado para a sua compreensão, no
capitalismo actual, no universo teórico-prático da gestão do que
no universo do main stream do pensamento económico académico. Pois
este pode tornar-se apenas uma desinteressante colecção de histórias
de ficção científica, digamos assim. Senti-me feliz pela
compreensão manifestada por Drucker, que então contou o episódio
da sua juventude, quando após escutar uma conferência de Keynes,
lhe confessou que tinha dúvidas sobre o conceito de equilíbrio
económico, tão querido dos economistas. Dir-se-ia que o conceito é mais necessário ao equilíbrio
psicológico do economista do que à própria realidade da economia. Keynes disse-lhe gravemente (em tom de governador de Banco
Central falando dos fundamentals, imagino eu) que «se não
acreditas no equilíbrio, nunca serás economista!». E Drucker,
tranquilamente, volveu: «eu sei». Como é óbvio, não
era exactamente esse o seu propósito na vida, o de ser reconhecido
como economista. Por outro lado, se o management é entendido ao nível mais
característico da direcção estratégica da empresa (aquilo que,
em princípio, corresponde ao papel típico do empresário), surgem
exigências doutra natureza, dificilmente satisfeitas pelo ensino
formal e que remetem, por exemplo, para a capacidade de tomar decisões
em condições de risco e incerteza, como sucede frequentemente na
actividade empresarial. Claro que o académico, seja qual for a sua formação
universitária, poderá adquirir ou desenvolver essa capacidade de
decisão de muitas formas, mas não certamente pela frequência das
universidades. A
sociedade do futuro Há muito de visionário na obra de Drucker, o que é mais
notável num homem de acção que como referi tem uma noção muito pragmática da Gestão.
Foi pioneiro em numerosos campos que hoje estão banalizados como a
economia e a sociedade do conhecimento, os «knowledge workers», a
natureza da grande corporação, o papel do chamado top management,
a importância das organizações não lucrativas, etc. Num dossier expressamente escrito, por convite, para The
Economist (3 de Novembro, 2001) e sugestivamente intitulado The Next
Society, analisa diversos temas de grande actualidade, como as tendências
demográficas nas sociedades pós-capitalistas, em que o notório
processo de rápido envelhecimento da população (mais lentamente
nos EUA do que na Europa e no Japão) tem complexas e profundas
consequências na organização social, ou a questão da identidade
da grande corporação, em tempo de generalizado out-sourcing
e de organização em rede. Mas talvez que a mais penetrante análise, das muitas
perspectivas abertas por este excepcional intérprete do nosso
tempo, seja a referente à lógica das organizações não
lucrativas, que segundo ele, tendem a predominar no capitalismo
actual e que cobrem actividades tão variadas como as próprias
igrejas, escolas e hospitais. Segundo Drucker, «a economia do conhecimento está mais próxima
do que a «sociedade do conhecimento». Mas, para esta, sem dúvida
que ele é o autor que maiores contribuições tem fornecido. Desejemos, assim, longa vida, para quem tão fecundamente tem
sido capas de geri-la Mário Murteira
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