Por onde vai a África?

Mário Murteira

 

Foi em Dezembro de 1975 que pela primeira vez estive em África, para uma estadia de alguns dias em Bissau, a convite de Vasco Cabral, grande amigo já falecido, então Ministro (Comissário) da Planificação. Além do mais, tínhamos em comum a licenciatura em Economia obtida na rua do Quelhas, no ISCEF de Lisboa

Quando o avião terminou a aterragem, e se abriram as portas para os passageiros desembarcarem, ao começar a descer a escada, senti aquele bafo quente e húmido a que me habituei com dificuldade. Tal como aos mosquitos e à Resoquina, remédio então obrigatório para nos proteger do paludismo, mas causando acentuado mal-estar. Cheguei a África, pensando como muitos outros oriundos dos mais variados lugares do planeta, que iria testemunhar algo de precioso, talvez mesmo dar uma pequena ajuda a uma experiência original de desenvolvimento, numa das regiões mais atrasadas da economia mundial.

 A amplitude das marés na foz do Geba é muito grande, pois é suave o declive da plataforma continental, e Bissau debruça-se, na maré baixa, sobre um extenso pântano povoado de variados e estranhos seres, pequenos peixes, cobras e lagartos mais ou menos repelentes. Além destes, o que traria brasileiros, portugueses, chilenos, alemães (ocidentais e orientais), chineses, soviéticos, cubanos, norte-coreanos, suecos, norte-americanos a tais paragens? Não estavam ali, certamente, para fazer negócio, como mais tarde sucederia com alguns deles. É verdade, todavia, que muitos procuravam fazer um certo marketing, isto é, a promoção da sua (infalível) utopia.

Como também sucedera alguns meses antes em Lisboa, depois de 25 de Abril de 1974.

E recorde-se a grande diversidade étnica do pequeno território da Guiné-Bissau, habitado por balantas, fulas, mandingas, felupes, bijagós, e outras etnias, com aparências muito diversas, costumes e línguas também variados, e certamente com visões do mundo divergentes. Tenho na memória belas imagens duma flotilha de pirogas singrando rio acima, conduzidas por pescadoras felupes, remando na madrugada, perto de Cacheu; pensariam elas navegar rumo ao socialismo, interroguei-me? Mas guardava a ironia para mim próprio.

Nessa época, a Guiné-Bissau era bem mais do que um jardim zoológico especial; era, na realidade, um riquíssimo e fascinante «jardim antropológico» onde todas as experiências humanas, boas ou más, pareciam possíveis.

Era possível, por exemplo, encontrar um delegado soviético do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), chamado Tchitov, assistido por um italiano chamado Siciliano. Tive algumas reuniões com os dois simultaneamente, e pouco percebi do que realmente queriam e qual a conclusão da reunião. Creio que estavam ali para mutuamente se controlarem. Também me foi possível conhecer um médico chinês, então prestando serviço no hospital de Canchungo, que em mau português se revelou curioso e mesmo fascinado pela personalidade de Otelo Saraiva de Carvalho…

Alguns anos mais tarde, precisamente a 14 de Novembro de 1980, encontrava-me na ilha de São Nicolau em Cabo Verde quando Nino Vieira tomou o poder em Bissau, derrubando o então Presidente Luís Cabral e rompendo a unidade política com Cabo Verde, sob a égide do partido fundado por Amílcar Cabral, o PAIGC (por extenso: Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Era o fim de mais uma grande ilusão

Alguns jovens quadros caboverdeanos do partido, que estavam comigo, pretenderam que eu lhes explicasse o ocorrido, perplexos e preocupados... Não lhes disse o que pensava, pois há conclusões que só cada um pode tirá-las.

Há boas razões, generosas e respeitáveis, que podem levar um grupo de homens a conquistar o poder, como sejam a libertação e o desenvolvimento humano do seu povo. Mas, uma vez conquistado o poder, frequentemente, o objectivo principal passa a ser apenas conservá-lo. Ao contrário da Guiné-Bissau, todavia, Cabo Verde tem sabido gerir em democracia as complexas peripécias da luta pelo poder entre diferentes pessoas e partidos.

Para além disso, o desenvolvimento duma economia e duma sociedade, tal como o da pessoa, faz-se…fazendo-se. Na Europa, na Ásia ou na África. Não há receita ideológica, nem profeta ou profecia que dispensem o exercício persistente e competente da prática que se corrige a si própria e assim constrói o seu caminho

É tão fácil dizê-lo ou escrevê-lo…

 

Publicado em «Espaço África», Junho-Julho 2006

 

 

 


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