Mário Murteira

Desde o início da década de 1990 visitei várias vezes algumas cidades da China, de Macau e Hong Kong, a Cantão, Xangai e Pequim. Assim, numa dúzia de anos de frequentes viagens pela China e de contactos com chineses de várias condições, incluindo jovens universitários, professores e dirigentes e quadros empresariais, pude testemunhar vários aspectos da espantosa transformação do país na era pós-Mao. Não vou aqui ensaiar mais uma análise dessa transformação, mas apenas relatar alguns episódios e peripécias pessoais que talvez transmitam algo dessa realidade misteriosa e movediça que é actualmente a China. E tentar uma síntese pessoal dessas experiências

Começo por uma viagem nocturna de barco, pelo Rio das Pérolas, de Macau para Cantão. Tinha curiosidade, nos meus primeiros contactos com a China e o famoso rio, em percorrer de barco o trajecto de Macau até à caótica, mas fascinante, cidade de Cantão. Na realidade, tinha nos ouvidos a romântica canção norte americana, popular na minha juventude, que começa assim: I’love to get you on a slow boat to China…

Pensava que o bilhete que tinha adquirido em Macau me garantia o uso exclusivo do beliche, mas verifiquei logo à entrada que havia duas camas no compartimento e que teria companheiro chinês na viagem. Não foi difícil persuadi-lo, por gestos, a ocupar a cama superior, ficando eu no leito inferior, receoso e pouco curioso do que seria ressonar em cantonês, já que, segundo creio, ninguém ressona em mandarim. Mas não, o vizinho de cima manteve silêncio absoluto até ao fim da viagem.

Dei ainda uma volta pelo convés, onde pude observar algumas baratas transeuntes, além de muitos chineses usando roupa interior que ocupavam o vasto dormitório, uma espécie de «geral» do navio, enquanto eu viajava na primeira classe possível.

Quanto ao Rio das Pérolas, pouco se podia descortinar na escuridão da noite, pelo que me senti plenamente frustrado com a incursão pelo rio acima. Mas valia a pena chegar a Cantão e repousar num confortável quarto do White Swan Hotel, seguro de poder escolher a companhia, no caso de não preferir a solidão.

Quando saí do hotel e percorri a pé a área circundante, junto à margem do amplo rio, rapidamente me encontrei no labirinto do grande mercado da cidade. Entre as coisas extraordinárias à venda que pude observar, destaco enormes ratazanas, que o observador ocidental e distraído poderia confundir com coelhos e ternos peixinhos vermelhos e dourados, movimentando-se em pequenos aquários rectangulares.

Sentia-se também o característico calor humano das cidades chinesas a abarrotar de gente. E nesse tempo, podia-se ainda observar o engarrafamento de bicicletas numa praça da grande cidade; só anos depois se tornaram frequentes os nossos familiares engarrafamentos motorizados.

Mas a cidade que me despertava maior curiosidade e que não me desiludiu foi Xangai. Além do mais, recordava a cidade como teatro de La Condition Humaine de Malraux. Xangai surgia-me assim como o local privilegiado para observar o homem (de qualquer raça, cultura ou ideologia) nas suas angústias e contradições mais íntimas. A Bund , área urbana de traçado europeu em Xangai, tal como Times Square ou  Wall Street   em Nova Iorque ,pareciam-me  bem no centro do mundo.

No hotel em que me instalei, o histórico Peace Hotel, um amável chinês da recepção quis saber donde eu provinha. Respondi-lhe com a verdade, receando desapontá-lo, dizendo que vinha de Lisboa. Não me esqueço do sorriso de simpatia e cumplicidade com que retorquiu: Ah, Casablanca!... Não consegui averiguar as razões dessa memória chinesa dum filme emblemático do Ocidente, na altura da Segunda Guerra Mundial.

Noutra ocasião, pude conhecer professores chineses duma das melhores universidades chinesas, Tsinghua em Pequim, alguns vindos de estágios do famoso MIT norte-americano e discutir com transparência, durante algumas horas, alternativas para o futuro mundial da China.

 Procurando uma síntese dos contactos, digamos, ideológicos, com a multiplicidade de contactos humanos de que pude beneficiar na China, mesmo de contornos anedóticos, como os acima referidos, formei uma visão da presença chinesa no mundo actual, embora tendo consciência de que essa visão é apenas um humilde slow boat numa torrente histórica imensa e muito rápida.

A globalização do sistema mundial, de que a China é um actor principal, significa a mercantilização das relações sociais e os chineses, mesmo culturalmente, não se sentem pouco à vontade nesse processo. Pelo contrário: trabalham duramente, com tempos e intensidades quotidianos dificilmente suportáveis por ocidentais, para poderem emergir da pobreza em que o grande número ainda se encontra mergulhado. Em aulas que dei em Macau e Cantão, conheci jovens chineses e chinesas fascinados pelo que supunham ser o American way of life

Mas um dos lados mais negativos da globalização – a acentuação de desigualdades, nomeadamente entre classes sociais e regiões – também é observável neste imenso território. Bem como o aumento de desemprego, e as migrações internas não controladas. A transição para a economia de mercado, entre outras consequências, implica o desmantelamento de estruturas sociais que desempenhavam papel equivalente ao Welfare State europeu.

 Assim, pude observar em universidades e grandes empresas estatais, unidades com funções sociais diversas, como hospitais, habitações para trabalhadores, residências para professores e alunos, refeitórios, pequenos mercados, etc. O processo de «transição para a economia de mercado» na China tem como um dos maiores obstáculos esta rede de serviços de que o trabalhador da empresa estatal ou o professor e aluno dispunham e de que ficarão desprovidos na maré da privatização.

Também é preocupante para as autoridades chinesas, a forte acentuação dos desequilíbrios regionais no desenvolvimento económico, já que este tem sido sobretudo localizado em zonas do Sul e do litoral, além de grandes pólos nas proximidades do Rio Amarelo e do Rio das Pérolas

Donde concluo que a grande problemática a defrontar pelos chineses nesta primeira metade do século XXI tem mais a ver com a projecção interna da globalização do que com a sua projecção externa sobre todo o sistema mundial.

Dito doutra maneira: a grande questão do presente e do futuro imediato da China consiste no seu acesso à democratização social e política, quando o mercado global já invadiu todo o país.

Mas é certo que o mercado global, por sua vez, não ficará incólume perante a crescente e tentacular presença chinesa.

Mário Murteira

mariomurteira.com

 

 

 

 

 

 

 


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