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O Elefante, o Dragão e o Urso Mário
Murteira
A
grande vaga globalizadora A palavra «globalização» tem sido utilizada em diversos sentidos, mas no essencial significa geralmente o seguinte: processo histórico de longa data, remontando aos «Descobrimentos» dos Portugueses, implicando crescente interdependência ou interconexão da economia mundial, processo que adquiriu nas últimas décadas novas características sobretudo derivadas de dois factos, um de natureza tecnológica, outro mais caracterizadamente económico. No aspecto tecnológico, trata-se do desenvolvimento de novas tecnologias da informação e da comunicação (que designamos por TIC) e que permitem, entre outras coisas, mobilidade praticamente instantânea de duas formas de capital, o capital financeiro e o capital intelectual, ou «conhecimento». Note-se que nenhuma destas formas de capital se identifica com o «capital fixo» da contabilidade nacional que se refere a materiais produtivos, como máquinas, equipamentos vários ou infra-estruturas de construção e obras públicas. São formas bem mais subtis, especulativas e voláteis de capital. No outro aspecto, trata-se da afirmação de novos actores na economia mundial, as empresas ou corporações transnacionais, que designamos por ETN. Estes actores, umas vezes são considerados na literatura especializada como «multinacionais», outras vezes, como «transnacionais». Mas mais recentemente, reconhece-se que predomina uma tendência de «des-nacionalização», ou seja, tais actores tendem a perder referências nacionais, e a adquirir ou reforçar uma identidade própria, que é intencionalmente criada pelo top management em obediência a determinada estratégia de marketing. ou posicionamento no mercado global Neste quadro, coloca-se então a questão de saber se, nessa «floresta global» em constante desenvolvimento, onde se defrontam estranhos seres ao mesmo tempo tão fortes e tão frágeis como as ETN, ainda há lugar para grandes categorias distintas de actores, com diferentes raízes geográficas, históricas e culturais. Parece que sim, como vamos verificar. Mais precisamente: pode identificar-se um grande movimento histórico de «des-ocidentalização» do crescimento da economia mundial, em que duas grandes potências do Oriente, a China e a Índia, estão à beira de ocupar posição dominante naquela economia. Mais dominante do que a jamais ocupada pelo próprio Japão, limitado por característica introversão cultural e também por desastrosa experiência de convivência no contexto asiático. E essa ascensão ocorre depois do «urso» soviético que ameaçou a hegemonia do capitalismo ocidental tér sucumbido de doença inesperada, pelos anos 80 do século passado. Nos começos do novo século, eis que o «dragão» chinês e o «elefante» indiano se preparam para sair vencedores da luta sem quartel que se trava pelo domínio dessa floresta global que nos envolve. E isto, enquanto a hegemonia norte-americana entra em declínio e a UE não consegue encontrar via própria para não sofrer os efeitos disso. Processo com consequências também na degradação da própria natureza que, apesar de tudo, foi e continua a ser o grande berço da vida no cosmos. A questão colocada não é meramente académica, apesar da sua vastidão e generalidade, pois tem consequências práticas muito claras na existência de todos nós. Mesmo aqui, neste canto sossegado da Europa Ocidental, onde o emblemático e inofensivo galo de Barcelos, em tempo de elefantes e dragões, continua a ser exibido aos turistas Com efeito, a grande conquista da Europa ocidental, a partir do Séc. XVIII, encontra-se num processo histórico então inédito de crescimento económico aliado à democratização política e social das nações. Realidades tão diversas e fundamentais como a democracia política, também a Economia Política, a industrialização e o sindicalismo operário surgem então. Grandes figuras intelectuais muito diversas como Adam Smith, Rousseau, Karl Marx, Schumpeter e Keynes marcam caminhos da História desses tempos tão distantes e também tão próximos. Na Europa, em certo grupo de países, é então possível construir - após longo processo de conflitos sociais - o «Welfare State», e integrar as classes trabalhadoras numa economia e numa sociedade que justificaram a designação de modelo social europeu. Este modelo social – que contém uma herança cultural comum, mas apresenta aspectos específicos nos diferentes países que o praticaram – está hoje seriamente ameaçado pelo processo de globalização, além doutros factores, até de natureza demográfica. No aspecto demográfico, é a estagnação ou mesmo decréscimo da população que ocorre em países da Europa, incluindo Portugal, sendo que o mesmo sucederá a mais longo prazo nos EUA. O que implica ou implicará, com redução da natalidade e aumento da duração da vida humana, envelhecimento médio da população e crescente sobrecarga dos regimes de pensões sobre a população activa, além doutras consequências no mercado de emprego. A pujança dessas economias emergentes asiáticas que referimos é, além do mais, de diversas formas, uma ameaça ao chamado modelo social europeu, Quanto a Portugal, infelizmente não pode dizer-se que tenha conseguido chegar ao modelo «europeu», mais de trinta anos decorridos depois da conquista da democracia política. E não parece provável que venha a consegui-lo, quando os próprios pioneiros nesse caminho são forçados a rever estratégias e políticas que tiveram o seu tempo áureo nas duas ou três décadas que se seguiram ao termo da Segunda Guerra Mundial. É esta incómoda problemática que iremos examinar mais de perto. China
e Índia, dois trajectos distintos no mercado global Embora surgindo ambos com dinâmicas impressionantes no mercado global, e suscitando admiração, e algum receio, à generalidade dos comentadores, é surpreendente a diversidade das origens históricas e culturais dos dois grandes países, tal como as vias por onde crescentemente se afirmam. Talvez se possa afirmar que, verdadeiramente, China e Índia só têm de comum, no fim de contas, apenas isto: não são ocidentais, nem pretendem sê-lo. E também é verdade reconhecer que o Ocidente desenvolvido, incluindo parte da América e da Europa, é cultural, social e politicamente menos diferenciado que os emergentes colossos asiáticos Pois, afinal, foi da Europa que surgiu a América, embora esta rapidamente tivesse conquistado a maioridade… Seja como for, comparando o «dragão» e o «elefante», são evidentes grandes diferenças sociais e políticas. A Índia, tem um regime político democrático que resiste a grandes tensões internas e externas, mas ao mesmo tempo exibe grandes desigualdades nas condições de vida da população, com base em profundas diferenciações de géneros, classes sociais, grupos étnicos e regiões. A China, provém dum regime autoritário, burocrático e centralizador, que se identificou num socialismo considerado de raiz marxista, mas que desde os finais dos anos 1970, tem sido pioneira de uma transição para a economia de mercado, invulgarmente bem sucedida no plano económico. Mas, para além dessas distinções mais evidentes, registam-se impressionantes diferenças nas estratégias económicas de globalização prosseguidas nos dois países A trajectória chinesa, depois da morte de Mao, encerrou a desastrosa experiência de «auto-centramento», ou «confiança nas próprias forças» e procurou combinar ingredientes aparentemente contraditórios: uma direcção política centralizada e autoritária, crescente abertura à entrada do capital estrangeiro, a coexistência dum sector estatal em regressão e dum sector privado em expansão num sistema económico capaz de crescimento muito rápido. Em menos de três décadas, a China torna-se uma das maiores economias mundiais, o principal pólo de atracção do investimento directo externo (IDE), também um destacado exportador e investidor no mercado mundial. A China passa a condicionar decisivamente a evolução da economia mundial: pela dimensão insaciável dum mercado interno em forte expansão, pelo poder competitivo das suas exportações que, além do mais, substituem produções nacionais em mercados cada vez menos «internos», pela atracção do IDE e, ao mesmo tempo, pela expansão do investimento externo chinês na economia mundial, por exemplo e mais recentemente, na própria África, incluindo Angola e Moçambique. A Índia segue um caminho, até recentemente, mais discreto e menos ambicioso: o regime político permite a convivência democrática de diferentes partidos, a reviravolta na transição para a economia de mercado não revestiu o mesmo carácter dramático da viragem pós-Mao, enfim, a competitividade da economia no mercado global não assenta como ainda sucede em grande parte no caso chinês, na mão-de-obra barata. Apoia-se antes na disponibilidade de recursos humanos, tecnológicos e empresariais muito qualificados e particularmente bem posicionados em áreas críticas, como as tecnologias da informação e comunicação, a prestação de serviços de saúde e a formação de recursos humanos em certas áreas científicas e tecnológicas. O que significa ser hoje possível a uma ETN de raiz norte-americana, por exemplo, substituir quadros nacionais por quadros indianos altamente especializados, se necessário por via do chamado out-sourcing Além do mais, está assim no horizonte a possibilidade de uma gigantesca deslocalização de cadeias produtivas tecnologicamente avançadas do Ocidente para paragens asiáticas. Processo, aliás, já iniciado Embora por vias diversas, o resultado de tudo isto, é a transferência de empregos de Ocidente para Oriente, mesmo altamente qualificados, e a dificuldade crescente, na Europa, em defender o património de direitos sociais e políticos que fez o chamado modelo social europeu. Porém, pode colocar-se a seguinte questão: nestes processos emergentes de globalização da China e da Índia, não surgirá também a necessidade dalguma via própria de democratização social e política? Da mesma maneira que no Ocidente, em certo ponto do seu percurso histórico de crescimento económico, surgiu um imperativo interno de democratização, não será previsível algo de semelhante ou equivalente nos países em questão, alterando os parâmetros internos da repartição do rendimento entre classes sociais e regiões? Ocorre, em face desta interrogação, recordar o papel desempenhado pelo «urso» soviético na democratização social do Ocidente. Como salientou um reputado economista americano que foi director da Escola de Gestão do MIT, Lester Thurow, a URSS desempenhou um papel fundamental naquela democratização. Por ironia da História, o urso soviético foi mais eficaz na transformação do capitalismo no Ocidente do que na própria Rússia, sob liderança duma partido comunista. Na verdade, a ameaça comunista gerou um contexto social e político nas democracias ocidentais em que a promoção das classes trabalhadoras foi impulsionada, não só pela pressão dessas mesmas classes, como também pela ameaça de que uma alternativa mais radical se tornasse inevitável. Não se vislumbra, no actual contexto mundial, qualquer possibilidade de a Rússia de Putin desempenhar semelhante papel no século XXI. O «urso» marxista-leninista foi-se embora e no seu lugar ficou uma Rússia também emergente no mercado mundial mas que não parece vocacionada para papel de envergadura comparável aos que estão ao alcance da China ou India Mas não é de excluir a hipótese de que dinâmicas endógenas naqueles países asiáticos venham a exigir correspondentes e específicos processos de democratização social e política. E sem dúvida que é altamente desejável que isso aconteça, até para salvaguarda da paz mundial. Portugal
nas rotas das Descobertas, outra vez? Estes imensos horizontes interessam a um pequeno e periférico país do Ocidente europeu? Claro que Portugal não é de grande relevância para as estratégias mundiais dos colossos asiáticos que temos referido, mas estas são sem dúvida de grandes consequências para a economia portuguesa, a mais ou menos curto prazo. A economia portuguesa sofre vários efeitos do contexto descrito, que aliás são progressivamente reconhecidos entre nós: não pode mais basear a sua competitividade na mão-de-obra barata, mesmo na satisfação da procura interna; tem que aumentar a «intensidade em conhecimento» quer da mão-de-obra quer do sistema produtivo; deve alargar o número, ainda restrito, de empresas nacionais que se posicionam no amplo mercado chinês em rápida expansão; deve procurar formas de cooperação com empresas, universidades e pólos locais indianos de excelência em determinadas áreas tecnológicas, para de várias formas tirar partido das vantagens competitivas em que a Índia se tornou mais forte. Em última análise, e esta parece ser a orientação assumida pelo actual governo português, trata-se de compreender que a inevitável globalização da economia e da sociedade portuguesa não pode limitar-se à integração europeia, cada vez mais extensiva e menos intensiva. É integração num mercado global com novas dinâmicas e novos actores que, como vimos, já não são ocidentais. Trata-se, pois, de certo modo, de retomar caminhos em que alguns dos mais destemidos e empreendedores dos nossos antepassados foram pioneiros (1) (1) O número de Dezembro de 2006 de Economia Global e Gestão, revista quadrimestral da Escola de Gestão do ISCTE, incluindo a colaboração de autores chineses, é dedicado a vários aspectos da presença da China no mercado mundial. Sobre a emergente Índia, foi recentemente editado em Portugal o bem documentado livro de Ashutosh Sheshabalaya, intitulado Made in Índia (CentroAtlantico, Lisboa) *
Publicado em Cadernos
de Economia (Ordem dos Economistas) nº 78
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