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Universidades Periféricas? Mário
Murteira
Aprender
a ensinar A minha actual condição de professor universitário jubilado, com uma carreira profissional movimentada, que decorreu por mais de quarenta anos em variados locais do planeta, permite-me guardar na memória, entre outras, muitas recordações das primeiras aulas que dei nas ex-colónias portuguesas, nos primeiros anos da independência Mas mais, muito mais, mudaram também as ideologias e visões do mundo que recebo e transmito num planeta cada vez mais pequeno e interligado Claro que muita coisa mudou em trinta anos, em particular em matéria de produção e gestão de conhecimento. E tudo sugere que mudará ainda mais nos trinta anos a seguir. Quando hoje se discute a questão da criação ou consolidação de universidades em países periféricos da economia mundial, 7por exemplo em África, podem surgir dúvidas sobre a real potencialidade dessas instituições, uma vez que - dir-se-ia - se o país é periférico, a universidade sê-lo-á também. Necessariamente, o conhecimento transmitido nessas universidades, seria de segunda ou terceira ordem, e os respectivos diplomados, de duvidosa qualificação. E isto quando tanto se fala de economias ou sociedades «baseadas» no conhecimento. Cada vez mais, não é o certificado ou diploma, só por si, que contam, mas sobretudo a qualidade geralmente reconhecida à instituição que os titula. Por outro lado, quem frequenta a universidade, tem expectativa legítima que essa frequência signifique um investimento pessoal, recompensado em termos de empregabilidade no chamado «mercado de trabalho» que é real, gostemos ou não da expressão. Coloca-se então a questão de saber qual o possível papel da universidade, como centro gerador e transmissor de conhecimento e quais as condições a satisfazer para que uma universidade mesmo se situada em áreas marginais ou periféricas do sistema mundial, não seja marginal ou periférica em termos de conhecimento . Recordando
as origens do INEP de Bissau Por volta de 1980, cheguei a discutir com alguns membros do governo de Cabo Verde a possibilidade de criar no país um instituto de formação em desenvolvimento, orientado para a preparação de quadros da administração pública nos países africanos de expressão portuguesa. Na Guiné Bissau, por essa altura, o então jovem sociólogo Carlos Lopes – que depois seguiu uma carreira de sucesso como alto funcionário da ONU - lançava o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa) que chegou a ter papel relevante na investigação e formação no contexto africano da época. Era evidente que, embora a Guiné Bissau fosse uma nação muito pobre e periférica, como infelizmente continua a ser, o INEP tinha ao seu alcance um estatuto relevante em matéria de investigação científica no campo das Ciências Sociais e particularmente relevante naquilo que por essa época se designava, sem complexos e com muita esperança, de Terceiro Mundo. Afinal, essa experiência do INEP demonstrava a possível desconexão – embora longe de ser segura ou garantida para sempre– entre o estatuto do país no sistema da economia mundial, e o estatuto da sua universidade num outro «espaço»: o do conhecimento. Hoje, o exemplo da Índia é frequentemente citado para mostrar que um país pode ser, ao mesmo tempo, relativamente atrasado ao nível da economia nacional, e muito avançado em termos de ensino e investigação em áreas estratégicas, por exemplo, tecnologias da investigação e da comunicação. O que nos conduz a considerar mais de perto duas características que julgo essenciais numa universidade, neste contexto do «desenvolvimento» das economias e também, sobretudo, dos povos: a universidade como organização não só empreendedora mas também aprendente. A
universidade empreendedora e aprendente A universidade «empreendedora» está hoje bastante disseminada pelo mundo inteiro, e em Portugal já existem experiências relevantes nesse sentido. Procura-se uma acção, ligada às práticas da gestão de organizações, que prepare verdadeiros «empreendedores», capazes de inovar não só em actividades mercantis, mas também em actividades doutra natureza, por exemplo no domínio da saúde, da educação ou do desenvolvimento local. De notar que a gestão, actualmente, cobre uma gama muito variada de domínios, englobando distintos paradigmas, incluindo a gestão de si mesmo e a chamada inteligência emocional…Mas a universidade em questão não se limita a «ensinar», no sentido tradicional, mas procura «lançar à água» iniciativas empreendedoras, que seguirão com maior ou menor sucesso o seu trajecto próprio, nos mares encapelados da economia dita de mercado, A universidade «aprendente» é um conceito diferente e afinal, mais difícil de pôr em prática, É um conceito que propõe a ideia de organização capaz de gerar – e não apenas de «gerir» - conhecimento, através de apropriadas relações interactivas entre os seus membros e entre estes e o meio exterior. Não se trata apenas de reunir na mesma instituição pessoas (professores e alunos) que aprendem, sem cuidar muito do que se entende por aprendizagem. Afinal, é preciso rigor na resposta a questões simples e essenciais como estas: aprender o quê, como, para quê, com quem, onde?... Com demasiada frequência, a universidade ainda é hoje um arquipélago de saberes isolados, que se ignoram, ou mesmo combatem, mutuamente. No caso da universidade «aprendente» no nosso sentido, será necessário estabelecer à partida um ambicioso programa próprio de investigação aplicada, considerado como central na estratégia de desenvolvimento universitário. Claro que um tal programa visará «criar» conhecimento ajustado às condições e necessidades do meio natural, humano e social em que a universidade se insere. E pode ao mesmo tempo funcionar como mapa orientador de prioridades no ensino e na criação de redes cooperativas transnacionais em matéria de conhecimento Esta universidade, não se limita portanto a gerir e transmitir conhecimento nas áreas da sua competência; a sua «razão de ser» estaria sobretudo num projecto próprio, configurado em função das características do meio envolvente. Mas claro que essa «criação» não é feita a partir do nada, mas antes e sobretudo, mediante a adaptação e conjugação de conhecimentos existentes. Falta saber onde estão e como combiná-los…para chegar a algum «valor acrescentado», como dizem os economistas. Uma universidade com estas características não será mera utopia, sobretudo se pensarmos na natureza periférica das economias em questão, hipótese de partida deste raciocínio? A utopia não é necessariamente algo de ilusório e negativo. Pode (deve) funcionar como estímulo à infindável procura e construção do conhecimento, essencial na condição humana, e a nível individual e também colectivo. Muito mais perigosa do que a utopia é a retórica pomposa, instalada nalgumas fortalezas do saber que julgam guardar tesouros preciosos e antigos… Publicado
em
África 21, 2007
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