BOCA DE TUBARÃO

 

Mário Murteira

 

A globalização do turismo

O turismo é uma actividade que hoje se expande por todo o lado, impulsionada pela globalização da economia mundial. Esta expansão, em dada sociedade, pode não ser isenta de aspectos negativos, em termos económicos, culturais e ambientais.

O turismo pode ser explorado por empresas estrangeiras que capturam praticamente todos os benefícios da indústria: o turista sai do seu país num avião da empresa ou do grupo que explora o turismo, vem para um hotel propriedade do mesmo grupo e regressa a casa pelo mesmo meio que o trouxe. E pode contribuir impunemente para a degradação do meio ambiente local, ou dum património histórico precioso.

Como a Cidade Velha, na ilha de Santiago em Cabo Verde , a cidade de Bolama no arquipélago de Bijagós, na Guiné-Bissau, ou ainda a ilha de Moçambique, na rota da Índia, três exemplos de antigas capitais, cujas ruínas guardam preciosos patrimónios históricos e culturais.

Nesta perspectiva, parece que deveria evitar-se que tais locais fossem visitados por turistas incultos e insensíveis a essas preciosidades. Como, aliás, também deveriam ser resguardados dos habitantes locais, porventura legitimamente preocupados com a sua subsistência material, antes da cultural. Neste último caso, pode surgir um delicado conflito entre o interesse da conservação do património histórico e as motivações locais da população, como sucedeu na Cidade Velha de Santiago e o arquitecto Siza Vieira testemunhou, não há muito tempo.

Contudo, devidamente condicionado pelas autoridades nacionais, nos contextos próprios, o turismo pode antes revelar-se um importante instrumento de afirmação dum país no espaço global da cultura e do conhecimento. E esta possibilidade revela-se hoje promissora num país como Cabo Verde, aparentemente pouco favorecido em recursos naturais,

 Digo aparentemente, porque na referida perspectiva de afirmação num espaço global de cultura e conhecimento, Cabo Verde apresenta consideráveis recursos.

Participei recentemente num encontro na Cidade do Mindelo, onde se celebrou o décimo quinto aniversário do ISCEE (Instituto Superior de Ciências Económicas e Empresariais), uma instituição de limitados recursos financeiros, mas que tem tido um papel relevante na formação de quadros em Contabilidade e Gestão em Cabo Verde. O ISCEE tem uma configuração original, pois é um instituto público de gestão privada. A sua futura integração na universidade pública de Cabo Verde, em instalação, vai obrigar a um delicado processo de transição, mas estou certo que o capital de conhecimento do ISCEE será salvaguardado.

Na viagem de Lisboa para Cabo Verde, tive ocasião de trocar ideias sobre o tema desta crónica com o Reitor António Correia e Silva, meu conhecimento de longa data, que há alguns bons anos foi meu (excelente) aluno num curso de mestrado em Estudos Africanos organizado pelo ISCTE de Lisboa E no Mindelo pude beneficiar do convívio com o prestigiado escritor Germano Almeida, que também colaborou na festa do ISCEE. E ainda encontrei o Engenheiro António Canuto, que dirige a ONG «Diáspora Caboverdeana», e outras instituições de carácter social e que tem tido papel decisivo no desenvolvimento do instituto em referência.

 Estes e outros estimulantes contactos locais, bem como as não menos estimulantes recordações de mais de trinta anos de contactos com Cabo Verde, induziram-me a esta reflexão, um tanto provocatória, que apenas pretende suscitar outras, e muito mais profundas, análises dum tema relevante para vários países africanos.

Certamente que a nova Universidade de Cabo Verde permitirá um valioso posicionamento internacional do país, e um aproveitamento adequado dos recursos nacionais em «cultura e conhecimento»

 

Novas dimensões do turismo

É importante perceber, além do mais, que existem novos modelos turísticos. Por exemplo o eco-turismo, orientado por preocupações ambientais, que nos pode conduzir até às paisagens deslumbrantes da Serra da Leba, no caminho do Lubango até ao deserto de Namibe, no sul de Angola, e onde se encontra a estranha e rara planta que se alimenta de insectos, a Welwitschia Mirabilis. Ou o turismo religioso, que busca os locais mais importantes para os crentes de determinada religião, como Fátima para os católicos. Ou ainda aquilo que, embora incorrectamente, designo por turismo cultural, isto é, um turismo que dá importância a novas perspectivas culturais, seja por permitir acesso a determinadas expressões artísticas, ou meios naturais específicos, seja por introduzir o turista num contexto histórico e cultural diferente do seu e que lhe abre novas perspectivas de entendimento do mundo em que vive. Num tempo em que se valoriza, na linguagem da ONU, a «liberdade cultural para o desenvolvimento humano», o turismo pode, afinal, ser um instrumento do conhecimento recíproco e pacífico de diferentes culturas e dos diferentes caminhos que assim se abrem ao (possível) desenvolvimento humano.

É nesta última perspectiva que o potencial turístico de Cabo Verde me parece mais

relevante e que, em particular, a nova universidade pública de Cabo Verde poderia desempenhar um papel decisivo. Porque, no fundo, embora falando de turismo, actividade que parece ser essencialmente determinada pelo recreio, lazer e prazer, a mais inocente das suas expressões sendo algo como «mar, Sol e praia», estou a desviar-me para algo de bem diferente.

Algo que tem a ver com a construção da identidade cultural duma determinada sociedade localizada no espaço e no tempo.

 

Conhece-te a ti mesmo

Nesta perspectiva, é importante que antes do mais, Cabo Verde se conheça a si mesmo, a sua história e as diferentes dimensões da sua cultura. Afinal, trata-se dum país com nove ilhas habitadas, cada uma com a sua própria história natural e trajectória humana.

Recordo-me que há cerca de vinte anos, visitei pela primeira vez a ilha da Boavista, ainda praticamente ignorada pelo turismo e exibindo uma colecção de dunas e palmeiras enfezadas que sugeriam um deserto perdido no oceano. Perante uma descrição dessa paisagem ao então Secretário de Estado das Finanças, dr. Arnaldo França, também historiador relevante do seu país e ao tempo director da preciosa revista Raízes, ele observou-me, sem ironia: «Sim, há notícia de pelo menos um camelo na Boavista»

Mas as paisagens da Serra da Malagueta em Santiago, ou do vulcão do Fogo, empoleirado uma montanha de 3000 metros de altura ou dos montes escarpados de Santo Antão, não têm nada aparentemente de comum entre si, nem com a quase desértica Boavista.

Se pensarmos agora que as correntes emigratórias tradicionais de cada ilha têm diferentes destinos, e que as crónicas dos povoamentos respectivos são também diversas, fica-se com a noção da espantosa diversidade cultural deste pequeno país.

E, neste contexto, a pequena cidade do Mindelo, cujas origens estão ligadas à  marinha britânica e aos primórdios da navegação a vapor, é um microcosmos exemplar.

Nesta cidade de São Vicente existem ainda «botequins», carregados de tradição e  maus costumes, entre eles o sugestivamente designado Boca de Tubarão

Uma vez perguntei a um transeunte local a razão de tal nome. Obtive a seguinte resposta, tranquila e lapidar:

Há lá de tudo, como na boca do tubarão

Aliás, como em Cabo Verde

 

mariomurteira.com

 

Publicado em África 21, Outubro de 2007

 

 

 

 


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