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Um encontro em Paris, há trinta anos O recente falecimento do economista brasileiro Celso Furtado,
aos 84 anos de idade, recorda-me o tempo em que o encontrei pela
primeira vez, há trinta anos em Paris, onde se havia exilado por
lhe ser intolerável a ditadura militar então vigente no seu país.
Eu próprio sentia-me recém-nascido dum regime democrático de
escassos meses (estávamos em
Junho de 1974), depois de viver as primeiras
décadas da minha existência em ditadura, na mais profunda
escuridão intelectual.. Estava assim profundamente feliz por
encontrar aquele espírito aberto e perspicaz, na cidade luminosa
que ao tempo ainda era bem o símbolo do Ocidente livre e
progressista. Por essa altura, Celso era já conhecido e respeitado na América
Latina e também como seria de esperar, Neste intervalo de três décadas, também o pensamento económico
(e não só a conjuntura económica mundial) atravessou diferentes
«ciclos» ou orientações dominantes. A década de 1980, dominada
pelas ideias da Senhora Thatcher, pela impiedosa (mas largamente
merecida) crítica do estado como agente económico, pelo primado
das políticas de privatização e desregulação, foi o apogeu da
nova vaga de liberalismo económico. Que em larga medida, todavia, já
passou à história. Como passou a dizer o Banco Mundial, o estado não
se deve opor ao mercado mas antes ser «seu amigo» ( the
market friendly approach ) e
vice-versa, acrescento eu... Celso Furtado tem, porventura, o máximo da sua influência
intelectual nas décadas de 1960 e 1970, que inclui o período da
sua estadia na CEPAL (Comissão Económica para a América Latina da
ONU ) e é quando lança as bases dum «pensamento próprio» dos
problemas do desenvolvimento e do subdesenvolvimento, distinto quer
da ortodoxia do pensamento económico dominante no Ocidente «desenvolvido»
( a chamada main stream ou corrente principal dos autores de língua inglesa),
quer das correntes também mais ou menos «ortodoxas» do pensamento
de raiz marxista. O «estruturalismo» de Celso Furtado – que nada tinha a
ver com a escola filosófica francesa
da mesma designação – dava relevo aos factores
estruturais que constituíam obstáculo ao desenvolvimento e, em
particular, àqueles que impediam a redução nas grandes
desigualdades na repartição do rendmento, características dos países
subdesenvolvidos, em particular do próprio Brasil. Havia assim um
potencial «mercado interno» por explorar, obstruído com bloqueios
estruturais, restando o caminho do crescimento económico pelas
exportações, precário e compatível com grandes tensões sociais
internas. Tempos
de «confiança nas próprias forças Também por essa época têm grande audiência os teóricos
da «dependência», sobretudo latino-americanos, como Ruy Mauro
Marini e Sérgio Ramos e, entre eles, o próprio ex-Presidente
brasileiro Fernando Henrique Cardoso , alguns deles de pendor
radical e mesmo superficialmente demagógicos. É também o tempo de
maior audiência internacional do egípcio Samir Amin, que navegava
em águas semelhantes Mas, ainda por meados dos anos 70 do século
passado, muitos economistas e políticos de boa fé acreditavam na
possibilidade duma «Nova Ordem Económica Internacional» e
defendiam estratégias
«auto-centradas» de crescimento
capazes de vencer, ao mesmo tempo o subdesenvolvimento e a
dependência. Falava-se muito de «confiança nas próprias forças»
ou self reliance e a
estratégia maoista de desenvolvimento económico atraía muitos
intelectuais do Ocidente, até economistas norte-americanos como
Magdoff e Seezy da Monthly
Review Só muitos
anos mais tarde, na grande viragem da China pós-maoista, se
percebeu a magnitude deste mal entendido. Mas o nosso autor
nunca alinhou verdadeiramente neste campo mais radical e ideológico,
tendo a seu favor a dignidade dum pensamento próprio, rigoroso,
embora sem dúvida contestável. Uma vez mais, trinta anos volvidos, ocorre perguntar: que
valem hoje tais ideias, em tempo de generalizado domínio das
grandes ETN (Empresas Transnacionais), da implacável globalização
da economia mundial, enfim, do desvanecimento
do «Terceiro Mundo», como conjunto coerente e influente de
países «em desenvolvimento» no mercado global? Há indícios que apontam para a recuperação de algumas
dessas convicções dominantes há trinta ou quarenta anos e que
também explicam, nalguma medida, as homenagens agora prestadas a
Celso Furtado, ele que foi expoente de convicções tão opostas à
ideologia económica dominante nas últimas décadas do século
passado. Recuperação em que sentido e porquê? Espaços de cooperação Sul-Sul no mercado global Uma das grandes questões que se hoje se colocam no contexto
da globalização da economia mundial refere-se à afirmação de
espaços macro-regionais de integração ou cooperação económica
que, sem constituir «fortalezas» anti-globalização possam
todavia corresponder adequadamente aos interesses e objectivos próprios
de cada região inserida na economia mundial. E mesmo sem dizê-lo
expressamente, possam também reduzir, ou conter, o peso hegemónico
da economia norte-americana no sistema económico mundial É claro que o espaço em expansão da União Europeia, pesem
embora todas as suas fragilidades e incertezas actuais, é o exemplo
mais conseguido de construção duma dessas «macro-regiões» ao nível
do que em tempos se chamava
«Primeiro Mundo», bem separado do «Terceiro Mundo», enquanto num
meio algo nebuloso se situava o auto-designado Sistema Socialista
Mundial, que ficou sepultado no próprio processo histórico que, em
tempos, pretendeu conduzir e liderar. Mas é ao nível (digamos, simplificadamente, como em tempos
se usou referir) da cooperação «Sul-Sul» que o nosso problema se
coloca, isto é, das cooperações mais reforçadas, por exemplo,
entre países da América Latina, da África Austral ou da Ásia do
Pacífico. É todavia flagrante que essas cooperações, para
resultarem, necessitam dalgum grande ( ao menos potencial) mercado
interno, como o Brasil na América Latina, a RAS na África Austral,
ou a China no Sudeste Asiático Essa vocação «macro-regional» brasileira está, no fim de
contas, bem presente na parte porventura mais significativa da obra
de Celso Furtado. Mário Murteira |
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