Um encontro em Paris, há trinta anos

O recente falecimento do economista brasileiro Celso Furtado, aos 84 anos de idade, recorda-me o tempo em que o encontrei pela primeira vez, há trinta anos em Paris, onde se havia exilado por lhe ser intolerável a ditadura militar então vigente no seu país. Eu próprio sentia-me recém-nascido dum regime democrático de escassos meses (estávamos  em Junho de 1974), depois de viver as primeiras  décadas da minha existência em ditadura, na mais profunda escuridão intelectual.. Estava assim profundamente feliz por encontrar aquele espírito aberto e perspicaz, na cidade luminosa que ao tempo ainda era bem o símbolo do Ocidente livre e progressista.

Por essa altura, Celso era já conhecido e respeitado na América Latina e também como seria de esperar, em Portugal. Com a recente revolução de Abril, a sociedade portuguesa procurava novos caminhos e os jovens oficiais do MFA não estavam seguros de qual escolher. Por isso, uma figura respeitada e independente como Celso seria bem escutada em Portugal e convidei-o a ir a Lisboa, para trocar ideias com os novos leaders políticos. Celso Furtado não se fez rogado e o seu discurso reformista foi atentamente escutado em 1974, mas já não o seria em 1975, quando o conflito social se tinha agudizado em Portugal e também o confronto ideológico.

Neste intervalo de três décadas, também o pensamento económico (e não só a conjuntura económica mundial) atravessou diferentes «ciclos» ou orientações dominantes. A década de 1980, dominada pelas ideias da Senhora Thatcher, pela impiedosa (mas largamente merecida) crítica do estado como agente económico, pelo primado das políticas de privatização e desregulação, foi o apogeu da nova vaga de liberalismo económico. Que em larga medida, todavia, já passou à história. Como passou a dizer o Banco Mundial, o estado não se deve opor ao mercado mas antes ser «seu amigo» ( the market friendly approach )  e vice-versa, acrescento eu...

Celso Furtado tem, porventura, o máximo da sua influência intelectual nas décadas de 1960 e 1970, que inclui o período da sua estadia na CEPAL (Comissão Económica para a América Latina da ONU ) e é quando lança as bases dum «pensamento próprio» dos problemas do desenvolvimento e do subdesenvolvimento, distinto quer da ortodoxia do pensamento económico dominante no Ocidente «desenvolvido» ( a chamada main stream ou corrente principal dos autores de língua inglesa), quer das correntes também mais ou menos «ortodoxas» do pensamento de raiz marxista.

O «estruturalismo» de Celso Furtado – que nada tinha a ver com a escola filosófica francesa  da mesma designação – dava relevo aos factores estruturais que constituíam obstáculo ao desenvolvimento e, em particular, àqueles que impediam a redução nas grandes desigualdades na repartição do rendmento, características dos países subdesenvolvidos, em particular do próprio Brasil. Havia assim um potencial «mercado interno» por explorar, obstruído com bloqueios estruturais, restando o caminho do crescimento económico pelas exportações, precário e compatível com grandes tensões sociais internas.

Tempos de «confiança nas próprias forças

Também por essa época têm grande audiência os teóricos da «dependência», sobretudo latino-americanos, como Ruy Mauro Marini e Sérgio Ramos e, entre eles, o próprio ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso , alguns deles de pendor radical e mesmo superficialmente demagógicos. É também o tempo de maior audiência internacional do egípcio Samir Amin, que navegava em águas semelhantes Mas, ainda por meados dos anos 70 do século passado, muitos economistas e políticos de boa fé acreditavam na possibilidade duma «Nova Ordem Económica Internacional» e defendiam  estratégias «auto-centradas» de crescimento  capazes de vencer, ao mesmo tempo o subdesenvolvimento e a dependência. Falava-se muito de «confiança nas próprias forças» ou self reliance e a estratégia maoista de desenvolvimento económico atraía muitos intelectuais do Ocidente, até economistas norte-americanos como Magdoff e Seezy da Monthly Review  Só muitos anos mais tarde, na grande viragem da China pós-maoista, se percebeu a magnitude deste mal entendido.

 Mas o nosso autor nunca alinhou verdadeiramente neste campo mais radical e ideológico, tendo a seu favor a dignidade dum pensamento próprio, rigoroso, embora sem dúvida contestável.

Uma vez mais, trinta anos volvidos, ocorre perguntar: que valem hoje tais ideias, em tempo de generalizado domínio das grandes ETN (Empresas Transnacionais), da implacável globalização da economia mundial, enfim, do desvanecimento  do «Terceiro Mundo», como conjunto coerente e influente de países «em desenvolvimento» no mercado global?

Há indícios que apontam para a recuperação de algumas dessas convicções dominantes há trinta ou quarenta anos e que também explicam, nalguma medida, as homenagens agora prestadas a Celso Furtado, ele que foi expoente de convicções tão opostas à ideologia económica dominante nas últimas décadas do século passado.

Recuperação em que sentido e porquê?

Espaços de cooperação Sul-Sul no mercado global

Uma das grandes questões que se hoje se colocam no contexto da globalização da economia mundial refere-se à afirmação de espaços macro-regionais de integração ou cooperação económica que, sem constituir «fortalezas» anti-globalização possam todavia corresponder adequadamente aos interesses e objectivos próprios de cada região inserida na economia mundial. E mesmo sem dizê-lo expressamente, possam também reduzir, ou conter, o peso hegemónico da economia norte-americana no sistema económico mundial

É claro que o espaço em expansão da União Europeia, pesem embora todas as suas fragilidades e incertezas actuais, é o exemplo mais conseguido de construção duma dessas «macro-regiões» ao nível do que em tempos se  chamava «Primeiro Mundo», bem separado do «Terceiro Mundo», enquanto num meio algo nebuloso se situava o auto-designado Sistema Socialista Mundial, que ficou sepultado no próprio processo histórico que, em tempos, pretendeu conduzir e liderar.

Mas é ao nível (digamos, simplificadamente, como em tempos se usou referir) da cooperação «Sul-Sul» que o nosso problema se coloca, isto é, das cooperações mais reforçadas, por exemplo, entre países da América Latina, da África Austral ou da Ásia do Pacífico. É todavia flagrante que essas cooperações, para resultarem, necessitam dalgum grande ( ao menos potencial) mercado interno, como o Brasil na América Latina, a RAS na África Austral, ou a China no Sudeste Asiático

Essa vocação «macro-regional» brasileira está, no fim de contas, bem presente na parte porventura mais significativa da obra de Celso Furtado.

Mário Murteira

 

 


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Peter Drucker, a economia e a sociedade do conhecimento

Celso Furtado e o Estruturalismo Latino-Americano

On a Slow Boat to China

A Ideologia Portuguesa

O Porco Transitário de Luanda

A geração da utopia, trinta anos depois

Globalização, conhecimento e paradigma humano  

 A insustentável Leveza do ser Europeu

Regresso a Bissau

O Elefante, o Dragão e o Urso

Universidades Periféricas?

Boca de Tubarão

As Hortas da IC19

Desafios ao Sindicalismo no século XXI

Pobres dos Ricos?

  Cidadania e Democracia

Até Breve, Senhor Zuca

A Caminho de uma Nova Ordem Económica?

 

 



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