|
| |||||||||||
|
| |||||||||||
|
|
|
| |||||||||
|
|
|
|
O
PORCO TRANSITÓRIO
DE LUANDA Mário
Murteira
No
conhecido livro do escritor angolano Manuel Rui, intitulado Quem me dera ser onda, assistimos
às peripécias duma família de Luanda que, em tempo de transição
pós- colonial, quer guardar clandestinamente um porco (de nome
Carnaval da Vitória) em sua casa, para em momento oportuno do
desenvolvimento do suíno, poder trocar o peixe frito habitual por
alimentação mais substancial. Entretanto, o porquinho caseiro, no
meio de complicadas aventuras, é magnificamente alimentado de
restos de comida luxuosa do Hotel Trópico. Ele parece ser, ainda
que por curto período, o grande beneficiário das mudanças Eu próprio me alimentei desse peixe frito em estadias em Luanda, Bissau e Maputo nos anos a seguir às independências, e sem ter à mão nenhum porco, mesmo transitório, de reserva Segundo o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, teórico da análise do sistema-mundo., vivemos na «Idade da Transição». Na verdade, estamos habituados a referências a diversos processos de transição, tais como a «transição para a economia de mercado», a transição para a «economia baseada no conhecimento» e a transição para o «mercado global», esta correntemente designada por globalização. Em rigor, trata-se de diferentes maneiras de olhar, ou interpretar, um único processo de transição, que é afinal a própria corrente da História. Mas, voltando ao porco «transitório» de Luanda, não haverá que falar mais especificamente duma transição africana? Começando pela globalização, sem deixar de reconhecer que o processo vem muito de trás na História, creio também legítimo afirmar que «algo de novo» surge na economia mundial desde o último quartel do século passado. Algo que é comum designar por «globalização», palavra susceptível de diversas interpretações mas que em termos económicos significa, no essencial, a emergência duma economia mundial crescentemente interdependente, em que já não tem cabimento falar de «Terceiro Mundo», pois existe um mundo único, embora profundamente desigual. Neste sentido, pode pois dizer-se, que a globalização é integração, formal e informal, da economia mundial. Um grande actor deste processo é a empresa transnacional (ETN), ou seja a empresa que detém capacidades produtivas em várias economias nacionais. Aquilo que correntemente se designa por «Investimento Directo Externo» (IDE), isto é, o investimento feito por uma empresa fora do país onde tem a sua sede, expande-se rapidamente desde meados dos anos 1970. E isto é hoje verdadeiro não só para os países «desenvolvidos» de maior dimensão ou volume da produção nacional – como os EUA, o Japão e a Alemanha – mas também para países como a China e a Índia. E não respeita apenas a empresas do sector industrial mas cada vez mais também a empresas de serviços, em particular serviços financeiros. E ainda «produtos culturais» de várias naturezas, como filmes, músicas e séries televisivas, de que países como a Índia e o Brasil, além dos EUA, podem tornar-se grandes produtores e exportadores Claro que a chamada «transição para a economia de mercado» que se generaliza a partir dos anos 1990, com o colapso da União Soviética, acelera o referido processo de globalização ou crescente interdependência da economia mundial. E recorde-se que – embora não confessada – a transição da China para a economia de mercado e isso pela crescente abertura ao mercado mundial, que se inicia após a morte de Mao Zedong, no final dos anos 1970, também contribui decisivamente para este processo. Outra dimensão deste acelerado movimento histórico característico das últimas décadas do século passado remete para o desenvolvimento dum novo modelo de crescimento económico, a chamada «economia baseada no conhecimento» (EBC) Neste breve panorama, é indispensável mencionar o desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação), facto que, além do mais, permite a globalização do capital conhecimento e também a aceleração da globalização do capital financeiro. Os dois processos parecem independentes um do outro, mas não é exactamente assim, pois o capital financeiro, em larga medida, conduz o «capital conhecimento» Saber mais, só vale a pena (diz-se) se render mais dinheiro Nos começos da segunda metade do século passado, a independência das «jovens nações africanas», na expressão de François Perroux, emergentes dos processos de descolonização, surgia associada à necessidade da industrialização. Dizia-se que a independência política deveria ser seguida pela «verdadeira» independência, esta económica. E para tanto seria indispensável pôr em prática uma estratégia de industrialização, por seu turno, centrada nas «indústrias industrializantes», isto é nas indústrias produtoras de equipamentos ou bens intermédios, como metalurgia, mecânicas, químicas, materiais de construção. E não, nas indústrias produtoras de bens de consumo, como têxteis, vestuário e calçado. No fim de contas, esta perspectiva conduzia os governos dos países do Terceiro Mundo, a olhar com algum fascínio para a estratégia soviética de industrialização baseada nas indústrias pesadas e relativamente introvertida. Fascínio que podia ser completamente alheio ao marxismo-leninismo, assumido como ideologia oficial do regime soviético. Esta concepção fazia assim da acumulação de capital um processo essencialmente material, conduzindo ao aumento das capacidades produtivas instaladas. Não se falava, então, ou falava-se muito pouco, de capitais ou activos em algo difícil de medir, sequer de definir, como o «conhecimento». Tratava-se, pois, de uma ideologia desenvolvimentista característica duma época em que os países de independência recente desejavam rapidamente reduzir ou mesmo anular o seu atraso e dependência relativamente aos países ocidentais que os tinham colonizado e dominado. E julgava-se poder fazê-lo num período relativamente curto, desde que o processo fosse devidamente planeado pelo estado. Pode-se encontrar exemplos do que afirmei em todas as ex-colónias portuguesas em África, nos primeiros anos de independência, incluindo as de menores dimensões como Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Estas «transições» africanas, assim entendidas já hoje não fazem grande sentido É neste fundo histórico que pelos finais do século passado, começa a falar-se dum novo modelo de crescimento económico baseado no conhecimento. De que se trata? Há uma conjugação de diversas tendências, entre as quais o peso crescente das actividades terciárias na estrutura da produção e do emprego dos países de maior desenvolvimento económico e, além disso, a importância também crescente de certos serviços mais «intensivos em conhecimento», como serviços de saúde e educação, informática, serviços financeiros, serviços de investigação científica e tecnológica, serviços de assistência técnica às empresas, marketing e comunicação social. Mas, mais profundamente, a inovação é instrumento preponderante da competição no mercado global e isso determina uma necessidade, ou procura, de conhecimento como suporte do lançamento de novos produtos e processos. O termo «conhecimento» significa aqui, simplesmente, organização da informação para resolver um problema ou responder a uma questão: «conhecer» pressupõe assim acumular informação mas não se reduz a isso. A própria actividade de Investigação e Desenvolvimento Experimental (I&DE) passa a ser fortemente condicionada por esse propósito, directo ou directo, de apoiar o processo de inovação no mercado global Mas, no continente africano, há duas fortes tendências que só por si dão especificidade às transições na região: o rápido êxodo rural e correspondente concentração da população em cidades, a expansão também acelerada da chamada economia informal, que podemos observar, por exemplo, em amplos mercados nas cidades de Bissau, Luanda e Maputo, onde se compra e vende tudo, incluindo misteriosas poções para toda a espécie de doenças, produtos originários da ajuda alimentar, calças de ganga do mais representativo estilo norte-americano, ferros de engomar e fogões a lenha e carvão, como recordo da casa da minha mãe nos recuados tempos da minha infância. Mas esta extensa economia informal é também transnacional, pois pode combinar-se de várias formas em redes internacionais, até envolvendo grandes empresas sediadas nalguma das economias nacionais hoje dominantes. Pairando, em postura mais ou menos formal e visível, sobre esta realidade movediça que é afinal a «transição africana», encontra-se o estado africano que não passa facilmente nos testes da «good governance» à maneira do Banco Mundial. Mas tudo isto. formal e informal, se vai transformando, ao som de muitos hinos e algum «Carnaval da Vitória» Pois porco é sem dúvida preferível a peixe frito. Resta saber quem come qual deles* *publicado em África 21, Fevereiro 2008 mariomurteira.com.
|
|
|
| |||||
|
| |||||||||||
|
Copyright © Netbug, Lda . Todos os direitos reservados . Optimizado para Microsoft Internet Explorer na resolução 1024 x 768 | |||||||||||