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As Hortas da IC19 Mário
Murteira
Todos
circulamos no mercado global Quem circula pela IC 19, nos arredores de Lisboa, em direcção a Sintra, pode avistar nos terrenos vagos, à beira da estrada, pequenas hortas e observar emigrantes de Cabo Verde aí procurando assegurar a subsistência. Muitos deles, na sua terra, tinham nos horizontes não a Serra de Sintra, mas a Serra Malagueta, na ilha de Santiago. Ou o Monte Cara, na ilha de São Vicente. Mas, embora trocando as serras, não trocaram os seus valores e maneiras de viver tradicionais. Tempos atrás, numa deslocação a Toronto, no Canada, pude visitar o bairro dos nossos emigrantes, perto do bairro dos italianos, em que cada casa ostentava no quintal uma típica «couve portuguesa», talvez boa para sopa ou cozido, erguendo-se qual bandeira nacional comestível. Quem passeia, hoje, pela Baixa de Lisboa, no Rossio ou na Praça da Figueira, pode ver turistas, mas é provável encontrar emigrantes de várias nacionalidades, mesmo oriundos de África, por vezes exercendo profissões pouco recomendáveis. Ainda há poucos anos, na zona de Colares em que actualmente resido, podia encontrar emigrantes da Europa de Leste, com formação universitária, até médicos, trabalhando na construção civil. Claro
que também encontro em Lisboa antigos alunos dum mestrado de Gestão
Sem dúvida que o «mercado global» em que todos vivemos facilita as mobilidades dos vários actores que nele intervêm. Sejam pessoas, capitais, serviços, mercadorias, conhecimentos… Mas a questão importante a reter é que alguns são (muito) mais rápidos e poderosos do que outros. Sabe-se que o dinheiro corre mais depressa do que o conhecimento (embora necessite da sua companhia) e, onde chega, domina. O trabalho, por seu lado, adapta-se para sobreviver, mas não se move com facilidade para onde deseja ir e, muitas vezes, quando chega, depressa verifica que se enganou – ou que foi enganado – no caminho. Que o digam, por exemplo, os russos que encontrei em Colares…E que haviam talvez concluído, por experiência própria, que o comunismo, verdadeiramente, não é deste mundo. Receitas
de sobrevivência As hortas nos arredores de Lisboa ou as patrióticas couves portuguesas de Toronto, exprimem estratégias de sobrevivência de diversas comunidades emigradas. Nesta matéria, aliás, há coisas muito piores do que a agricultura familiar: recordo por exemplo o desfile, que observei há anos, das jovens, pálidas e magras russas no casino do Hotel Lisboa, em Macau, prostituindo-se (em competição com as chinesas) na sua «transição» para a economia de mercado em tempo de Perestroika. É possível que algumas delas ignorassem, à partida do seu país, o destino que lhes estava reservado em Macau Uma característica dominante da condição do trabalhador no mercado global de hoje é a diversidade de posicionamentos possíveis, por seu turno derivada da sua maior ou menor empregabilidade. Esta, associa-se a múltiplas combinações de níveis de instrução e de competência ou aptidão profissional. A isto junta-se, sem dúvida, a crescente precariedade do emprego, que pode assumir diferentes formas. As mulheres entraram em força na competição pelo emprego, ao mesmo tempo que em muitos países da Europa diminui a natalidade e a população estaciona ou mesmo diminui. De registar também, conforme estatísticas internacionais disponíveis, que por todo o lado a parte do trabalho no valor acrescentado pela actividade económica tende a reduzir-se comparativamente à parte do capital, e isto em larga medida por força da globalização da economia mundial. No caso português, o fenómeno da emigração é hoje muito mais heterogéneo do que nos anos 1960, quando o país se despovoava e em que a grande atracção da nossa mão-de-obra, em grande parte então semi-analfabeta , vinha de países como a França e a Alemanha Ocidental, e os portugueses eram grosseiramente explorados, quer à partida quer à chegada, e sofriam do seu estatuto clandestino. Hoje temos, por um lado, um número crescente de «trabalhadores do conhecimento», altamente qualificados, pelo menos, instruídos, que não encontram emprego correspondente às suas aspirações em Portugal e que o conseguem no estrangeiro. Mas há ainda contingentes de mão-de-obra pouco qualificada, desempregada ou sub-empregada, que buscam oportunidade de emigrar, deste modo engrossando um proletariado ou sub-proletariado europeu. Na presente Europa da UE, esta problemática do trabalho e do emprego tornou-se mais complexa e diferenciada, havendo a considerar, na realidade, três grandes tipos de movimentos migratórios: movimentos entre o núcleo mais antigo e integrado dos países membros (digamos, a Europa dos 15); entre esta e os recém vindos, da periferia europeia; enfim, entre o grupo dos que estão, com diferentes velocidades, em processo de integração europeia e os países de emigração doutros continentes, em particular, África e América Latina. Perante este panorama, parece óbvio que o emigrante africano, em regra, não tem facilmente oportunidades para emprego digno e estável no contexto europeu, a menos que disponha de aptidões/qualificações que lhe permitam superar os concorrentes doutras origens no mercado global do trabalho. Como poderá obtê-las? É fácil enumerar, em termos genéricos, as vias para isso, mas já não é fácil praticá-las. Trata-se, afinal, de adquirir uma habilitação para o exercício de profissão procurada nos mercados de trabalho dos países de imigração, e que seja reconhecida como válida nesses países. Habilitação que por sua vez pode ser obtida ou em acções de formação nos países de destino ou nos países de origem dos emigrantes. Em qualquer caso, mediante sistemas de bolsas ou créditos em apoio dos formandos. Como estamos em tempo de «trabalhadores do conhecimento», para evitar que estes trabalhadores, em lugar de qualificarem o emprego, «qualifiquem» antes o desemprego, é necessário combinar o acesso a novas formas de aprendizagem com a correspondente empregabilidade. Um angolano ou um moçambicano, tal como um português ou um brasileiro, têm todo o direito em preferir um curso de História ou Antropologia, mas a menos que adquiram uma competência específica e reconhecida na matéria, não podem esperar o mesmo grau de aptidão profissional do engenheiro informático ou do gestor especializado em marketing ou finanças empresariais. Aliás, nos meus primeiros e distantes tempos de carreira profissional, rapidamente me apercebi que deveria praticar a estratégia de «avanço em garfo» (o termo é meu, não foi inventado por nenhum guru da gestão…). Isto é, quanto possível, deveria desenvolver, ao mesmo tempo, competências diversas, embora relacionadas entre si, também procuradas no mercado de trabalho, e evitar nessa minha entrada na luta pelo «emprego desejado e apropriado» uma especialização excessiva, que me tornaria mais vulnerável. Mas não é certamente fácil conseguir juntar aprendizagem e empregabilidade quando o crescimento das economias nacionais é lento e tende a gerar mais desemprego do que emprego. Registe-se, contudo, que embora com características muito diversas, as experiências recentes da China, da Índia e mesmo do Brasil, mostram que não é necessariamente assim. Podem gerar-se dinâmicas de forte crescimento da produção e do emprego em economias relativamente atrasadas, desde que se pratiquem políticas económicas e sociais eficazes e coerentes entre si. Em última análise, e dito de maneira muito crua: em tempo de aparente triunfo do mercado global, quer os indivíduos, quer as empresas, quer as nações, só poderão sobreviver mediante adequadas e astuciosas estratégias também globais. Mesmo que consistam apenas em plantar hortas à beira da estrada. Publicado
em África 21 mariomurteira.com
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