POBRES DOS RICOS?

 

Mário Murteira

 

A crise como processo em curso

Um dia destes voltei a encontrar um dos «capitães de Abril», que esteve activamente envolvido no 25 de Abril e episódios subsequentes do chamado PREC. Esclareço, para os leitores menos informados, ou mais esquecidos, que tratou-se do «processo revolucionário em curso» no final dos anos 1970.Aliás, processo que no Portugal de 2009 parece apenas produto da nossa imaginação, ou quando muito terá sido um «discurso», mas não propriamente um «curso»

Esse oficial meu conhecido desenvolveu uma curiosa interpretação da actual crise económica, sustentando – claro, como ele próprio reconheceu, «de momento» ignorando o caso dos desempregados – que desta vez seriam os ricos, mais do que os pobres, a pagar a crise. Os jornais dão frequente notícia, com surpreendente oportunidade e rigor, dos milhões ou mesmo biliões de euros ou dólares que alguns grandes ricos, é certo por vezes também grandes vigaristas, perderam na actual conjuntura. Contudo, as notícias são mais escassas e discretas no que se refere às consequências sofridas pelas classes médias, ou pelos pobres, mas ainda empregados. Pensei para mim mesmo, que se o meu interlocutor tivesse razão, mais de trinta anos depois da revolução dos cravos, finalmente se teria realizado em Portugal um típico slogan do PREC: «os ricos que paguem a crise!».

E, assim, poderíamos hoje dizer, até com alguma consternação: pobres dos ricos!

A questão poderá também colocar-se a outro nível, o dos estados nacionais. Nesta perspectiva seriam países «ricos» como os EUA e o Japão, e não países «pobres» como a China, a Índia ou Angola, a sofrer duramente as consequências da actual crise económica. E estes últimos poderiam até dalgum modo beneficiar desta conjuntura, pelos menos nalguns casos, fechando-se um pouco mais ao mercado mundial, «baseando-se nas suas próprias forças», como em tempos se dizia e confiando menos nos voláteis cenários globais.

Mas será assim, neste inquietante processo mundial realmente em curso? Ou será que os «ricos» são (digamos, por definição) mais mediáticos e por isso mais promovidos na comunicação social, enquanto os «pobres» sofrendo embora muito mais, são menos interessantes nos noticiários?

 

Um processo que pode abrir novas oportunidades

Antes de mais, convém acentuar que na realidade são, além dos desempregados, os pobres e os «remediados», mesmo empregados, que mais sofrem ou podem sofrer com a crise. E os jovens, em particular. Pois , em termos relativos, pode ser mais penosa uma pequena diminuição de rendimento real nesses casos do que na situação dos que vivem, e podem continuar a viver, na abundância, mesmo com redução das suas fortunas. Sem esquecer que o emprego pode tornar-se mais precário e mais incerta a situação profissional do trabalhador.

Este pode ser até forçado a aceitar menores salários para não perder o seu emprego. E a crise nas grandes empresas transnacionais é, como se sabe, um caminho hoje frequente de deslocalização de empresas e redução do emprego.

 É necessário não esquecer que desde o último quartel do século passado, com a acentuação da chamada globalização financeira, agravou-se também por todo o lado nos chamados «países desenvolvidos de economia de mercado» a desigualdade na repartição do rendimento nacional, com paralela redução da parte do trabalho (salários e ordenados) no mesmo rendimento. Com essa globalização, como é óbvio, acentuou-se a exclusão social e mais longe se ficou do ideal da coesão social defendido por todos aqueles que procuram, embora no seio do capitalismo, a democracia económica, além da democracia política.

As coisas, em matéria de justiça social, agravaram-se de tal modo desde meados dos anos 1970 que, face à actual situação, poderá todavia dizer-se, se preferimos o pensamento positivo à lamúria, que «há males que vêem por bem»

A adversidade aguça o engenho, como disseram os sábios mais antigos. Ou numa linguagem mais moderna, abre um espaço para a chamada inovação social.

 

Renovar os actores, em busca da inovação social

 Nesta matéria, um país africano que fornece exemplos positivos, é Cabo Verde. Aqui, é possível encontrar, por exemplo, actividades de formação não só de quadros superiores mas também de quadros médios, com objectivos precisos de empregabilidade, no âmbito da chamada sociedade civil. Que podem consistir, aliás, na capacidade para criar o seu próprio emprego Neste país africano, fico sempre impressionado com a persistente procura de ensino superior não inteiramente correspondida pela oferta de empregos qualificados, à saída das universidades ou institutos superiores. O ser-se, por hipótese, «rico em conhecimento» não garante de forma alguma o acesso à riqueza em dinheiro, embora seja legítimo e louvável buscar o conhecimento para «ser mais» em lugar de «ter mais».

 Este aspecto é importante em muitos países, por exemplo em Portugal: trata-se, em particular, de proteger o jovem (mesmo do diplomado com curso superior) à procura de primeiro emprego que é forçado a aceitar, na alternativa do desemprego, ocupações muito abaixo da formação que recebeu no sistema de ensino. O resultado é um jovem frustrado nas  suas  legítimas aspirações.

Há pois, como se procura fazer no exemplo citado de Cabo Verde, que relacionar cada vez mais formação com empregabilidade e para tanto é necessário também haver instituições apropriadas. O que além do mais remete para a hoje tão urgente questão de «renovar o sindicalismo», tema  que originou um livro recentemente lançado em Lisboa, com patrocínio do ISCTE e da OIT por iniciativa da Comissão Nacional Justiça e Paz, após um debate com ampla participação de quadros sindicais de várias tendências, além de professores universitários.

A verdade é que, quer do lado dos «ricos» quer do lado dos «pobres», a presente situação da economia mundial exige capacidade de inovação, e respeito (também inovador!) de valores éticos, mais do que dos «valores bolsistas».

 

//mariomurteira.com

 

 


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