Estive recentemente em São Filipe , na Ilha do Fogo, em Cabo Verde , onde voltei a encontrar alguém que aí conheci há quase trinta anos. Recordo que nessa altura, vi em grandes letras, no muro que circunda a estrada principal, uma inscrição que me provocou alguma curiosidade. Rezava assim: «viva o Camarada Aristides Pereira e o Senhor Zuca». O primeiro era então Presidente da República de Cabo Verde, militante histórico do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), hoje reduzido a PAICV, após o golpe de estado de Nino Vieira em 1980, que separou os dois países. Quanto ao Senhor Zuca, nunca ouvira falar nele.

Depois conheci-o e encontrei-o algumas vezes: era enfermeiro de profissão e desempenhava, nessa época, as funções de Presidente da Câmara Municipal de São Filipe.

Encantei-me com algumas das suas histórias e frases divertidas. Tinha bom humor e recordo o seu comentário por ocasião da visita do General Ramalho Eanes a Cabo Verde: «vamos lá ver se ele consegue pôr o vulcão a trabalhar». A reputação austera e empenhada do nosso general tinha também chegado à ilha do imponente vulcão do Fogo.

Agora, entre outras histórias que escutei sobre a personagem – muito popular e estimada pela população da terra – soube do caso do Mário Tubarão, segundo a versão do próprio. Um dia, um tubarão de mau feitio mordeu-lhe a perna e foi com dificuldade que outros pescadores conseguiram trazê-lo para terra, livrando-o da feroz criatura. Os primeiros comentários que o Mário ouviu dos seus salvadores anteviam a necessidade de amputação da perna ferida. Mas entretanto chegou o enfermeiro Zuca, que tratou o assunto com a sua competência habitual.

Assim, o Mário Tubarão conservou as duas pernas, para toda a vida, e ainda ganhou o apelido sugestivo da ocorrência.

Pois o Senhor Zuca tem agora 83 anos e continua a exercer dedicadamente a sua profissão de enfermeiro no hospital local. Almocei tranquilamente com ele em São Filipe , enquanto observava, pela ampla janela do restaurante, a silhueta da ilha da Brava recortada no horizonte colorido de mar e nuvens. E falámos, não tanto dos «bons velhos tempos», mas antes daquilo que creio serem os «bons novos tempos» da ilha, com múltiplas iniciativas de desenvolvimento local, em particular no Concelho dos Mosteiros. Bons exemplos do tal «desenvolvimento de baixo para cima», bottom up, de que hoje tanto se fala, mas não se pratica ainda o necessário.

Conto esta história como exemplo da solidariedade que por vezes liga estreitamente uma população local. Aqui, em particular, nesta ilha ainda tão preservada do uniforme da «globalização», que vai a pouco e pouco, e com maior ou menor velocidade, ameaçando as especificidades preciosas de muitos «locais», incluindo as respectivas culturas, nos vários cantos do planeta.

Dir-se-ia que a globalização, a mais ou menos longo prazo, será o «fim» da História e da Geografia. Num sentido que explico a seguir.

Da História, como tem sido afirmado de várias formas, por diversos autores. Mas não incluo nestes o presunçoso Fukuyama, que escreveu um livro muito falado nos anos 1990 sobre o «fim da História», na ocasião do colapso da União Soviética. Com o fim desta, e do confronto Leste-Oeste, a História murcharia, digamos, por falta de assunto ou argumento. Fukuyama enganou-se, como todos sabemos: a História continuou, e continuará, sempre cheia de surpresas.

 É num sentido totalmente diferente desse que aqui falo: o presente estaria hoje mais próximo do futuro do que do passado. Nestes termos, «hoje» seria mais semelhante a «amanhã» do que a «ontem». O futuro seria assim como um buraco escuro que nos atrai, sem sabermos para onde vamos, e esquecendo donde vimos.

Fim da Geografia, também, porque a poderosa «globalização» impele os locais, sobretudo, os mais atractivos para as multinacionais, para um destino ou modelo comum. No Brasil, em Angola ou na China, dir-se-ia. Pensemos, por exemplo, nas exigências do estrito marketing turístico, para satisfazer determinado padrão da procura turística internacional ou na proliferação dos condomínios reservados para gente rica, ou mesmo «muito rica», rodeados de gente muito pobre, em áreas suburbanas onde impera a violência.

 E não podemos esperar que os habitantes de locais onde persiste pobreza mais ou menos absoluta estejam preocupados com a preservação de contextos históricos, culturais ou ambientais que não lhes asseguram uma vida digna, própria da condição humana. Como sucede, por exemplo, na Cidade Velha, próxima da cidade da Praia, que foi a primeira capital do País, ou em Bolama, no arquipélago dos Bijagós, que foi também a primeira capital da Guiné-Bissau.

Claro que não nos encontramos aí, num mundo sem História nem Geografia, embora se trate de cenário inquietante dum futuro que as novas gerações poderão defrontar. Mas, estaremos seguros de que não caminhamos nessa direcção?

Voltando ao cenário real da ilha do Fogo. Eis que de novo me encontrei na insólita Chã das Caldeiras, esplêndido cenário de história (e geografia…) natural a cerca de dois mil metros de altura, onde podemos observar os rastos de sucessivas erupções vulcânicas, a última ocorrida em 1995. Nesta ocasião, a população local fugiu das suas casas, enquanto as lavas avançavam. Mas, logo que a erupção serenou, e apesar das indicações contrárias das autoridades, os fugitivos regressaram às suas terras. Segundo parece, porque crêem que as lavas não passam duas vezes pelo mesmo sítio. Tal como a História, no fim de contas.

Hoje, observamos com respeito os tapetes de lava de sucessivas gerações, que se podem prolongar, descendo até ao Atlântico, e se desdobram em surpreendentes formações ou esculturas acumuladas ao longo do tempo O grande cone de lava, com altura de cerca de mil metros, ainda se ergue sobre a ampla extensão da Chã. Uma vertente do vulcão desce directamente até ao mar: nessa encosta, de quase três mil metros, observam-se as mais variadas culturas, incluindo a do café, a vinha e a romã, adaptadas às diferentes condições climáticas de cada nível de altitude.

 Além das pessoas, também o café e o vinho do Fogo são de boa qualidade: dir-se-ia que a mãe Natureza teve particulares cuidados em tal sítio.

E não é tudo: há a recordar a crónica dos Montrond. Ainda hoje podemos encontrar na Chã das Caldeiras, crianças de cabelo louro, de olhos claros, que descendem dum nobre francês exilado no século XIX, que por ali residiu um certo tempo, suficiente para a renovação militante do povoamento local. Temos assim, no Fogo, um indício de globalização precoce estabelecendo original vínculo entre o local e o global, com uma vertente multi-cultural muito própria.

E é neste singular contexto humano e natural que reencontro o meu amigo Senhor Zuca. Que continua a tratar bem dos corpos e almas que passam pelo seu convívio. E que é também um rico contador de histórias, cheias de humor e simpatia.

Por isso digo, com convicção, ao voltar a Lisboa: até breve, Senhor Zuca.

Neste mundo ou noutro, não faço questão disso.

www.máriomurteira.com

Texto a publicar em África 21, no próximo mês de Outubro

 

 


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