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Na
final do campeonato mundial de rugby de 1995 Num belo filme recente de Clint Eastwood intitulado Invictus, evoca-se a figura extraordinária de Nelson Mandela e os primeiros tempos da era pós-apartheid. Além do mais, ao ver o filme, somos conduzidos a estar com Mandela na final do campeonato mundial de rugby, em 1995, quando a selecção sul-africana vence a agressiva e temível equipa da Nova Zelândia. Os estranhos ritos tribais que esta equipa exibe, alguns minutos antes de começar a partida, são assustadores, mesmo para praticantes dum jogo caracterizadamente violento que, como seria de esperar, embora com específicas regras nesse país, tem grande popularidade nos Estados Unidos. Na equipa da África do Sul, figurava apenas um jogador negro, pois ao tempo do apartheid, o rugby era um desporto para brancos, enquanto a miudagem negra, nos espaços miseráveis onde viviam, preferia o futebol. O envolvimento de Mandela no campeonato referido tem duas motivações principais: por um lado, transformar uma equipa ainda recentemente emblemática duma sociedade segregacionista, num instrumento de integração nacional, fazendo convergir brancos e negros para objectivos comuns; por outro lado, dar projecção mundial ao novo país africano, a que Mandela já sacrificara quase trinta anos da sua vida. Quando sobreviveu com impressionante coragem, encerrado numa exígua cela, cumprindo pena que o regime racista lhe impusera, só não o tendo condenado à morte por receio dos efeitos sobre o mundo circundante, acentuando o isolamento internacional do regime. A África do Sul ganha então o campeonato do mundo, e Mandela de novo transmite ao seu povo uma imagem vencedora, e aponta um caminho democrático de crescente integração interna. Integração do que era, e ainda é, uma sociedade de grandes desequilíbrios e tensões internas, mas ao mesmo tempo abrindo-se ao mundo exterior num difícil processo democrático. Tive ocasião de visitar a África do Sul, por diversas vezes, nos dias finais do apartheid e nos primeiros tempos do novo regime. Passei por locais variados como Pretória, Cidade do Cabo e Joanesburgo, além do Kruger Park, onde conheci pessoalmente (digamos assim…), gorilas, girafas, búfalos, hipopótamos, leões e leoas, entre outras criaturas que já haviam conquistado a liberdade muitos anos atrás. Liberdade relativa, é claro, como sucede a todos os transeuntes deste planeta, cada um à sua própria medida. Circunstância que no caso do Kruger Park me permitiu observar a fase derradeira da paciente e astuciosa perseguição dum despreocupado bando de bois cavalos por um disciplinado grupo de leões e leoas. Estas fizeram quase todo o trabalho, menos matar as vítimas, tarefa de que os leões diligentemente se ocuparam. A especialização, ou divisão de trabalho, dos géneros mantém-se nessa espécie, ao contrário do que vem sucedendo na espécie humana. A
transição sul-africana para a democracia Ficaram-me na memória múltiplas imagens dessa transição sul-africana, quer do meio humano quer do meio natural. A Cidade do Cabo, desdobrando-se por encostas de cores suaves até ao mar, é uma das mais belas cidades por onde passei (e passei por muitas, a Norte, Sul, Leste e Oeste deste maravilhoso planeta tão desaproveitado e tão degradado por um estranho ser, dito «humano»). Da primeira vez que lá fui, recordo a simpática senhora branca, de meia-idade, que conduzia o táxi onde eu seguia, e apesar de exibir algum optimismo sobre o futuro, não escondeu também alguma preocupação sobre o seu próprio futuro pós-aparteid. Como também os professores universitários brancos, com quem na altura contactei. Apercebi-me que o país não tinha só brancos ricos, pois também os havia pobres, embora fosse, de longe, a multidão dos negros que mais sofria as agruras da doença e da pobreza extrema. Circunstâncias várias forçaram-me, em dada ocasião, depois de perder o avião que deveria transportar-me de Joanesburgo a Maputo, a fazer esse percurso por terra, em autocarro duma empresa moçambicana. O qual se avariou no caminho, e assim me permitiu observar com mais detalhe, entre outras coisas, o caótico trânsito na fronteira de Ressano Garcia. E também o profundo contraste, nessa época, entre as regiões vizinhas de Moçambique e da África do Sul. Pensei, para mim próprio: como seria no futuro aquela vizinhança? Mas recordo sobretudo alguns membros do ANC que compunham o primeiro governo após a libertação do regime racista. Pude trocar algumas ideias com eles sobre o futuro do novo regime. E uma vez mais, como na URSS da Perestroika e no Portugal de 1974, pude espantar-me com a candura, ou ingenuidade daqueles que pela primeira vez chegam ao poder, depois da queda ou do colapso dum anterior regime opressor, que longamente se mantivera no poder. Que vai ganhar a África do Sul no campeonato mundial de futebol? Pois, como é sabido, quinze anos depois de ter sido teatro do campeonato mundial de rugby, que venceu, a República da África do Sul vai agora organizar o campeonato mundial de futebol. Em 1995, o país não era favorito do campeonato que acabou por vencer. E Mandela esteve em campo, de várias formas e sem dúvida foi o negro que presidia aos destinos do país que acabou por ser o «jogador» mais decisivo para o triunfo final. Como será agora? Mandela já não «estará em campo», pelo menos no sentido em que esteve em 1995. Mas o jogo verdadeiro, hoje, não é o mesmo e com isto não pretendo referir que futebol não é rugby, embora possa por vezes ser tão ou mais violento… O que está agora em jogo, mais ou menos explicitamente, é saber se outras figuras sul-africanas, ainda que não tão excepcionalmente dotadas como Nelson Mandela, poderão promover a República da África do Sul ao grupo das economias emergentes, como a China, a Índia e o Brasil, economias que surgem capazes de ultrapassar a presente crise económica e de ter no futuro um papel predominante no sistema do mercado global. Que tem o futebol a ver com isto? Que tinha o rugby a ver com o apartheid em 1995? Ambos os desportos, em circunstâncias históricas particulares, podem levar mensagens de confiança e esperança no futuro a multidões que carecem disso, para conseguir muito mais. Trata-se de mostrar que é possível (como talvez diriam, cada um à sua maneira, Mandela e Obama), vir do fundo para a tona do mar, e conseguir singrar para destino há muito sonhado, mas que só agora está finalmente à vista. www.mariomurteira.com
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