Gloria Swanson descendo a escada

No caminho da Praia Grande, perto da Praia das Maçãs, nos arredores de Lisboa, pude há tempos visitar a casa onde Glória Swanson, verdadeira glória do cinema norte-americano, passou alguns anos de vida, já no seu doloroso crepúsculo. Vendo em velhas estantes os estranhos livros que eram as suas leituras, nas paredes, as pinturas que a retratavam quando jovem, escutando histórias daqueles que a haviam conhecido nesta fase, pressenti o sofrimento duma mulher que fora vedeta mundial, ali esquecida, mantendo com dificuldade o seu equilíbrio mental. E recordei um dos grandes filmes de que fora protagonista, Sunset Boulevard (o Crepúsculo dos Deuses, na versão portuguesa), realizado em 1950 e a célebre e extraordinária sequência final. Quando a personagem Norma Desmond desce triunfalmente a escadaria do palácio, julgando desempenhar mais um grande papel, com Eric Von Stroheim fingindo filmá-la, nos últimos degraus antes da porta da rua. Mas na realidade (da história que interpreta) Norma vai ser conduzida ao manicómio, para aí terminar os seus dias

Note-se a sobreposição de três «realidades» distintas: da história contada por Billy Wilder, da imaginação da personagem Norma Desmond, da sua vivência, porventura dolorosa, por Gloria Swanson. E já agora: juntemos a minha própria «realidade» lembrando tudo isso, 50 anos mais tarde, ao visitar a casa onde vivera a actriz. E não só recordando, mas adivinhando qualquer perfume de actualidade em todo aquele cenário

A actriz Gloria Swanson, e a sua personagem Norma Desmond, viveram profundas depressões, em vidas intensas e atribuladas- O que foi a «realidade» para Gloria ou para Norma? Algo certamente de profundamente subjectivo e, no fim de contas, incomunicável.

Afinal, é bom reconhecê-lo: a chamada «realidade» só existe na nossa imaginação, ou na nossa ideologia, no sentido de particular visão do mundo. Mas essa ideologia, que se exprime a nível individual, também é fruto de grandes movimentos, vagas ou «ciclos» ideológicos. Por exemplo, Portugal vive hoje um tempo de depressão psicológica, que se associa – mas não se reduz – a uma depressão económica As nossas doenças, como economia e como sociedade, começam por uma doentia visão do (nosso) mundo. Visão a que chamo ideologia portuguesa.

Quero simplesmente dizer com isto que, se pretendemos melhorar a lusa realidade, temos antes do mais, de mudar de óculos… ou ideologia

Recapitulemos.

Fugir sem (sequer) voltar a face

Três primeiros ministros de Portugal ficarão na história recente do país por um motivo de certo modo comum, embora insólito: todos saíram inesperadamente, por razões diversas, mas não decorrentes do funcionamento normal das instituições democráticas. É certo que os dois primeiros do lote (refiro-me, claro, a Guterres e Durão Barroso) saíram de motu próprio, um (digamos) pela escada abaixo e outro (digamos) pela escada acima; enquanto o terceiro, perplexo, foi despedido pelo Presidente da República, segundo parece, por excessiva incompetência. Dos dois primeiros, poderá reconhecer-se que fugiram às suas responsabilidades perante o país, mais precisamente perante o eleitorado que os apoiara, certamente com alguma esperança e talvez muita ingenuidade. Diante de tais exemplos não se poderá estranhar a acentuada degradação ultimamente registada na nossa governança (neologismo derivado do inglês governance, hoje termo muito utilizado internacionalmente, sobretudo no contexto dos chamados países «em desenvolvimento» com problemas na qualidade dos governos e que assim parece ser também oportuno utilizar no nosso país).

Que fazer perante tal panorama? Repare-se que a desilusão e a descrença que nos cercam não resultam de, colectivamente, estarmos «menos desenvolvidos» do que há vinte ou trinta anos, como por exemplo sucede em certas regiões do planeta, sobretudo em África. Neste período, registaram-se progressos consideráveis no desenvolvimento económico e no desenvolvimento humano da sociedade portuguesa. É` certo que entrámos mal o século e que nos últimos anos, houve retrocesso; contudo, a questão que mais nos aflige parece residir no receio da acentuação dum atraso relativo, tomando por referência os países considerados mais «avançados», assim como a frustração de quem se sente impotente para alcançar algo muito apetecível que julgou ter ao alcance da mão. Sem dúvida que aumentou a distância entre as aspirações e as expectativas da maioria dos portugueses

Tempos houve, não muito distantes, em que muitos – sobretudo os mais jovens, incluindo o autor destas linhas – sonhavam com a «sua» revolução, associada a algum ismo ideológico (comunismo, socialismo, trabalhismo, anarquismo… para não falar noutras ideias mais caducas ou mesmo sinistras como corporativismo, fascismo e nazismo). Cada «ismo» continha uma receita infalível para alcançar o Paraíso. Mas parece que os «ismos» murcharam, sobrando apenas o terrorismo desesperado, aliás, sintoma de graves e profundas clivagens civilizacionais.

O exemplo edificante da Finlandia

Claro que reina, sobre tudo isto, a impressionante e implacável marcha da economia do mercado global que, numa certa perspectiva, tornou o planeta mais interdependente, pois todos ficámos mais próximos uns dos outros, se não no sentido da caridade cristã, ao menos no sentido da racionalidade mercantil. E é irrecusável o benefício que essa economia trouxe para grande parte da humanidade, embora subsistam, e até se acentuem, grandes desigualdades.

Na Europa a que nos obstinamos em pertencer, dois exemplos de espectaculares progressos colectivos, casos da Irlanda e da Finlândia, são frequentemente citados. Este último, porventura menos conhecido entre nós, é surpreendente: em menos de vinte anos, depois duma grave crise económica e política, concomitante do colapso soviético, a Finlândia do gelo e das florestas, com metade da população portuguesa, sobe ao topo da classificação mundial dos países em capacidade de inovação e acesso à chamada «economia baseada no conhecimento». Dizem-nos que se trata duma população habituada a correr grandes riscos, não só nos negócios, mas também (por exemplo) em matéria desportiva, lembremo-nos de corridas de automóveis.

Qual foi a receita finlandesa para o êxito? Talvez a necessidade de encontrar e praticar um projecto colectivo mobilizador e credível, que se faz fazendo-se e que que, além do mais, permita superar o gelado ambiente…

Voltando à nossa história inicial sobre o «Crepúsculo dos Deuses», poderemos perguntar com a inquieta amargura que caracteriza a ideologia portuguesa actual: seria, afinal, Norma Desmond oriunda de família portuguesa, quiçá descendente de intrépidos navegadores? E teria, no fim de contas, o Engº Guterres desempenhado com brilho o papel do realizador Eric Von Stroheim, iludindo os portugueses sobre o caminho triunfal dum regresso ao passado glorioso, afinal, apenas conduzindo ao delirante Santana Lopes?

Falando (ainda mais) seriamente: a moral de toda esta história, a meu ver, remete para a necessidade dalguma introspecção colectiva em torno desta problemática. Não se trata de fazer mais diagnósticos brilhantes e propor mais engenhosas receitas ao País. Parece que, tal como sucedeu nas experiências referidas, importa formular um projecto simples e claro para os portugueses recuperarem a confiança no seu destino colectivo. E importa sobretudo praticá-lo com convicção, persistência e rigor.

Uma nova engenharia de reformas

A grande questão política que o país defronta, afinal, é simples de explicar no papel: trata-se de criar condições para pôr em prática uma estratégia credível, sensata e eficaz de reformas em áreas críticas e que sejam coerentes entre si. A questão das finanças públicas não pode ser ignorada, sem dúvida, mas é (deve ser) instrumental e não pode substituir um quadro mais profundo de objectivos de desenvolvimento económico, social e humano de Portugal. Todos sabemos que áreas como a educação, a investigação científica e tecnológica, a inovação e o empreendedorismo, a administração da justiça, a saúde e a segurança social correspondem a outras tantas carências ou debilidades da sociedade portuguesa actual. É nisso que penso quando refiro a imperiosa necessidade de formular e praticar uma nova engenharia de reformas em Portugal. E de deitar fora a «ideologia portuguesa»

Mas que condições políticas e sócio-económicas poderão permitir tal coisa?

É matéria para abordar noutras crónicas.

 

 


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