Mário Murteira

 

Os anos da grande ilusão

Sabe-se como há vivências intensas de certas conjunturas históricas que são pessoais e intransmissíveis, como a nossa identidade: estão neste caso os anos de 1974/75 que são anos críticos e excepcionais não só da sociedade portuguesa como do sistema mundial no seu todo. Portugal adquiriu nesse período um relevo internacional que não mais voltou a ter, embora o facto resultasse duma conjuntura muito específica, mais do que do mérito dos protagonistas da história portuguesa de então. Nesse tempo, não dominava a «ideologia portuguesa», no sentido que dou à expressão, isto é, a visão amarga e descrente dos portugueses sobre si mesmos, visão que nos persegue e sufoca. Então, pelo contrário, os mais ambiciosos futuros pareciam estar perto

Aqueles que em 1974/75 tinham vinte, trinta ou quarenta anos, e viveram experiências cívicas generosas, de vários matizes políticos, terão provavelmente visões muito diferentes da revolução de Abril, além do mais, pela simples razão de que entraram no comboio da História em diferentes estações, de muito diversas paisagens. E aqueles que nasceram tarde demais para fazerem a experiência desse tempo, jamais perceberão o que há de único e revelador nessas profundas dinâmicas sociais.

Na verdade, parece que alguém (como eu, por exemplo) nascido pelos anos 1930, «deveria» estar suficientemente amadurecido em 1974 para uma vivência e um entendimento profundos desse ano tão importante na história portuguesa e, além disso, tão decisivo também na história do capitalismo ocidental.

Na realidade não estava.

De certo modo, ninguém estaria, nem mesmo as grandes figuras políticas da época. E como poderia ser doutro modo, em período de tão profundas e imprevisíveis convulsões? E indo mais ao fundo da questão: em rigor, ninguém pode ter a pretensão de entender a História em tempo real, como os actores que interpretam os seus papéis num argumento que conhecem do princípio ao fim. Com efeito, podemos dizer que só o futuro permitirá a compreensão do presente, quando este afinal já se tornou passado. E isto é sobretudo verdade nos momentos de ruptura, de queda dalgum «ancien regime», sem preparação de parto fácil do novo regime. Pensemos na França de 1789 ou 1871, da Rússia de 1914 ou 1989, ou do Chile nos tempos de Allende, no início dos anos 1970. Ou em Portugal nos anos 1974/75.

Mais de trinta anos volvidos e procurando olhar para trás sem ódio nem preconceitos, talvez seja hoje possível entender, ao menos vislumbrar em grandes linhas, o que ocorreu então e depois disso

 

O último quartel do século XX

Alguém chamou ao nosso tempo a «idade das transições».

Mas não é o tempo da generalizada «transição para o socialismo» que tantas correntes políticas e movimentos sociais reivindicavam em Portugal e um pouco por todo o lado, há cerca de trinta anos. É antes tempo de generalizada globalização do capitalismo ou ainda, como alguns defendem, da transição para a «economia do conhecimento» ou mesmo para a «sociedade da informação». Tempo também de grandes mudanças tecnológicas, em particular no âmbito das tecnologias da informação e da comunicação, matéria só por si determinante de consideráveis transformações na esfera sócio-económica e também no domínio cultural.

.Sabemos hoje que a verdadeira transição portuguesa encetada em 1974 foi a transição para o mercado global no contexto da integração europeia. Mas só na segunda metade dos anos 1980 se tornou claro esse destino, quando ao mesmo tempo se desmoronavam os Terceiro e Segundo Mundos, com o triunfo do Primeiro Mundo e do capitalismo do mercado global, afinal, todos confinados ao «Mundo Único» dos vencedores.

No caso português, foi afinal necessário um incerto período de cerca de dez anos (de 1975 a 1985) para consumar e consolidar a transição para a democracia política

O Portugal de Salazar era um Portugal introvertido e pobre, buscando uma relação particular com as colónias africanas, ainda mais subdesenvolvido culturalmente do que economicamente. Era um país triste, provinciano, beato, fechado sobre si mesmo, e que não parecia ter outro destino que não fosse continuar igual a si mesmo. Por isso, nos finais dos anos 60, os portugueses fugiam em massa de Portugal, emigrando clandestinamente nas condições mais precárias, para se livrarem da miséria ou da guerra colonial.

O episódio de Marcelo Caetano foi, de início, uma tentativa tímida de aggiornamento sem convicção nem audácia. Mas com ele, o regime tornou-se rapidamente, para usar um verso de Pessoa, algo de absurdo e inútil «sobrevivendo a si mesmo, como um fósforo queimado». Aliás, regime bem identificado pela figura caricata do Presidente da República de então, o almirante Tomás dos impagáveis discursos.

As esperanças imensas de 1974, num Portugal repentinamente tornado protagonista de relevo na cena mundial, contrastam com a mediocridade do passado então recente  (como também, é certo, do presente que hoje penosamente suportamos). Foi tempo de utopias, de românticas ilusões e também, claro, de inevitáveis demagogias e oportunismos.

Como aliás sucedeu também, durante um breve período, nas ex-colónias africanas, na época, como escreveu o escritor angolano Pepetela, da «geração da utopia». Ver-se-ia depois que milhões de pessoas iriam pagar caro as ilusões das independências quase sempre tão duramente conquistadas como mal geridas (a única excepção é Cabo Verde, afinal o país mais pobre em recursos naturais, mas também o melhor dotado em recursos humanos). Independências que não desembocaram nos maravilhosos amanhãs prometidos pelos movimentos de libertação e esperados pelas populações.

Por «culpa» de quem? A África das últimas décadas está cheia de histórias de insucesso e os malogros das ex-colónias portuguesas não constituem excepção. Todavia, o tardio calendário da descolonização e a forma como esta decorreu poderão ter contribuído para esse resultado.

Na realidade, à entrada do último quartel do século passado, estava-se no fim duma época do capitalismo, mas não no fim do capitalismo, como muitos então supunham confundindo desejos com realidades.

E estava-se também no fim, não só dessa «geração da utopia» - que na realidade iria por algum tempo ocupar o poder, geralmente sacrificando a utopia, sem pena nem remorso – mas também duma «geração de utopias», Utopias como, por exemplo, o projecto então convictamente defendido pelo Terceiro Mundo, de «Nova Ordem Económica Internacional», ou ainda da estratégia económica da «confiança nas próprias forças», ou self reliance, na expressão inglesa, em oposição à detestada «dependência» dos subdesenvolvidos em relação aos países ditos desenvolvidos e também imperialistas.

Uma vez mais, não só o mundo mudava profunda e inesperadamente, como também a nossa maneira de olhá-lo

 

Um «Admirável Mundo Novo» à nossa frente

Face a este panorama, há três possíveis maneiras de reagir, perante a pergunta formulada: uma, é simplesmente recusar o desfile dos factos e persistir teimosamente na velha utopia, qual D. Quixote tão convicto como patético; outra, é trocar a utopia (mesmo sem confessá-lo) pelo nosso próprio interesse, em clima de salve-se quem puder; a terceira é considerar a utopia como algo de sedutor embora fugidio e nebuloso, mas que nos aponta o caminho dum futuro melhor do que o presente. Nesta perspectiva, o que poderíamos chamar a «utopia portuguesa» nos últimos trinta anos, foi primeiro alguma forma «socialista» de organização da economia e da sociedade; e depois, em termos mais precisos, todavia ainda embrulhados no sonho, algum caminho dourado de integração europeia.

Esgotados tais horizontes, resta por configurar alguma nova utopia, que não seja alienante mas motivadora, e possa ocupar o lugar da tal «ideologia portuguesa», amarga e depressiva, que hoje predomina na sociedade portuguesa. Essa nova utopia – a que se poderia chamar, com algum cinismo e inspirados em Aldous Huxley, «Admirável Mundo Novo» - assenta na investigação científica, nas novas tecnologias, sobretudo da informação e da comunicação, e numa nova classe empreendedora. A Irlanda e, sobretudo, a Finlândia, exibem-nos as virtualidades do caminho, aparentemente, não só desejável como praticável.

Contudo, sempre se poderá afirmar, nestas como noutras matérias: o caminho não está feito, faz-se no andar. Caminhemos, pois.  

 

 


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