Campos de concentração para presos políticos

No Tarrafal, ao norte da ilha de Santiago, em Cabo Verde então recentemente independente, visitei as instalações do antigo campo de concentração para prisioneiros políticos da ditadura em Portugal. Chamaram-me a atenção para a «frigideira», isto é, uma cova coberta por armadura metálica, onde os presos aqueciam ou «fritavam» ao Sol, até confessarem ou dizerem o que a polícia política (PIDE) queria ouvir deles. Esses presos eram também portugueses que, tal como os africanos, se empenharam na luta contra o regime português da época. E ainda por essa altura, estive na bela praia do Tofo perto de Inhambane, em Moçambique, onde a FRELIMO guardava, num monumento envidraçado muito simples, uma colecção de ossos humanos, restos de militantes da luta de libertação, que ali haviam sido torturados até à morte. Mostraram-me os locais nas rochas junto ao mar, onde os prisioneiros eram colocados na maré baixa, submetidos a implacável interrogatório para confessarem, na alternativa de morrerem afogados logo que a maré subisse até cobri-los por inteiro.

 Sabia que Inhambane era terra acolhedora muito celebrada pelas suas verdes, grandes e doces tangerinas, mas não lhe conhecia aquela faceta sinistra; nunca mais a esqueci.

Como escreveu um escritor angolano, Pepetela, esses homens – afinal quer africanos, quer portugueses, quer brasileiros, quer chilenos, quer cubanos… no fundo, de todas as nacionalidades - pertenceram a uma «geração da utopia», isto é, correram atrás de qualquer coisa que justificaria todos os sacrifícios, incluindo a própria vida; qualquer coisa que, fosse qual fosse e por que fosse, ficou por consumar. O que fez que alguns,

 anos volvidos, duvidassem mesmo do sentido desse sacrifício e ficassem amargos cépticos, uns poucos até pior do que isso, pois tornaram-se, cínicos, ricos e poderosos, em lugar de generosos combatentes das grandes causas, como se mantiveram Nelson Mandela ou Xanana Gusmão.

Dizemos e ouvimos dizer muitas vezes, quer aos velhos, quer aos jovens, que esse tempo ou essa geração já passaram; e que o mundo global em que vivemos não tem lugar para grandes ideologias, religiões, e mais ou menos românticas utopias.

Será assim? Ou trata-se apenas de ver a superfície da História e de muitas histórias pessoais? No fundo, bem no fundo, será tudo tão simples?

Creio bem que não.

E pelo menos duma coisa estou certo:

Todos temos uma ideologia

A palavra ideologia tem sido utilizada em vários sentidos, uns positivos outros pejorativos.

Para Marx, por exemplo, que viveu em 1818-1883, portanto em tempo da chamada «Revolução Industrial», e de notória luta de classes, a ideologia significava uma visão deformada da realidade, consciente ou inconscientemente ao serviço dos interesses da classe dominante. Quer a religião católica quer a (pseudo) Ciência Económica burguesa estariam nesse caso

Mas para outro célebre economista nascido na Áustria no ano da morte de Marx (1883), chamado Schumpeter, ideologia significava visão do mundo ou «coeficiente pessoal» definidores da identidade de cada um, afinal da sua peculiar «maneira de ver» correspondente à sua própria «maneira de ser».

E para um outro autor ainda mais próximo de nós, Paul Ricoeur, aliás recentemente falecido, a ideologia representa algo de positivo, indispensável à existência humana, pois a ideologia, no fim de contas, é a interpretação que cada um encontra para si próprio e o mundo em que vive. É, neste sentido, uma espécie de sistema de coordenadas que nos orienta na acção, definindo um certo «Norte» para a existência.

Em qualquer destes sentidos, é claro que desde (por exemplo) a Idade Média até hoje, ideologias e visões do mundo se modificaram profundamente. O camponês da Idade Média situava-se num mundo à escala do seu lugar de subsistência, de um minúsculo ponto no espaço-tempo, com escassa ou nula comunicação com o mundo exterior. Com reduzida e precária esperança de vida, a sua ideologia era bem míope e dominada por crenças irracionais e obscuros temores. Se em lugar de camponês fosse pescador, teria um pavor imenso da tempestade no mar largo e mesmo que fosse um ousado navegador português, pioneiro da «globalização», recearia sempre encontrar no caminho algum gigante Adamastor.

É assim compreensível que a visão do mundo dos cristãos, e da própria Igreja Católica, tenha mudado, e continue a mudar, podendo até coexistir na mesma comunidade cristã localizada em certo ponto no espaço-tempo, profundas e legítimas diferenças entre os crentes nas respectivas «ideologias» ou visões do mundo e incluindo a visão ou conhecimento do próprio Deus.

Mas, seja como for, a verdade é que num período relativamente curto de três décadas (digamos, o último quartel do séc. XX, e até hoje) é impressionante a mudança registada nas predominantes visões do mundo dos nossos contemporâneos. Claro que o é sobretudo para as gerações nascidas na primeira metade do século passado, como quem escreveu estas linhas. A tal ponto que se manifesta praticamente impossível, hoje, a comunicação às gerações jovens das vivências mais características das décadas de 1960 ou 1970, como por exemplo a revolução estudantil de Maio de 1968 em Paris ou o maoismo como prática política na China mas também influente na Europa dessa época. E isto seja qual for a nossa posição ideológica pessoal em relação a tais acontecimentos.

 O futuro «vai acontecendo» nos dias que passam e já não parecem de tomar a sério os grandes projectos voluntaristas de transformação social. Mesmo os terrorismos que emergem aqui e acolá, no planeta, são afinal uma forma desesperada de tentar superar essa impotência. E assim somos conduzidos a perguntar, tal como Lenine fez no seu tempo:

Que fazer?

É certo que as muitas publicações e relatórios da ONU constantemente referem e registam o «desenvolvimento humano» como objectivo das políticas e, ao mesmo tempo, como indicador supremo do progresso dos países. Mas tal «desenvolvimento» respeita somente a aspectos simples e tangíveis – embora sem dúvida, fundamentais - como esperança de vida, nível de educação ou rendimento por habitante. Não nos elucida sobre o «modelo» ou «projecto» de desenvolvimento quer colectivo quer pessoal que as sociedades anunciam e praticam. Nesse aspecto, o regime «pior, com excepção de todos os outros», na frase famosa de Churchill, isto é, a democracia, apenas permite ou garante um geral «salve-se quem puder». O que sem dúvida é melhor que o regime ou instituição que nos quer «salvar» à força.

Parece então que o essencial é matéria de valores, de ética ou de religião e que, se acreditamos na democracia, se trata de questões a resolver exclusivamente segundo a consciência de cada um (ou, perante os tribunais, bem entendido). Por exemplo, como vi e ouvi não há muito tempo, uma jovem americana missionária regressada do Afeganistão, onde dedicada e corajosamente ajudou muita gente, não em nome de George W. Bush mas do Deus em que acredita. Ou aquela outra distinta senhora, prémio Nobel da Paz, que tem corajosamente defendido na Birmânia valores fundamentais da liberdade humana face a um regime militar opressivo…

E no entanto, se o Reino de Deus dos cristãos não é deste mundo, a tal utopia de que tenho falado é mesmo deste mundo, deixa marcas, como demonstram não só os  exemplos do Tarrafal e Inhambane que referi, mas também os novos militantes, heróis e missionários que continuam a defender por inteiro as suas causas, independentemente dos resultados que alcançam no curto prazo e das ambiguidades que por vezes esses resultados acarretam.

A moral desta minha história é que mesmo se não acreditarmos que Deus «fez o homem», mas que este provém da evolução milenária da Natureza, temos de concluir que é o homem – esse «terceiro infinito», o infinito da complexidade, como lhe chamou Teilhard de Chardin -,o homem movido por íntimo, misterioso e fundamental impulso, que fez e continua a fazer a ideia e, sobretudo, a experiência de Deus, numa interminável perseguição ou descoberta mediatizada por diferentes culturas e civilizações. Aliás também, em busca, da verdadeira Justiça e da verdadeira Paz nas relações entre os homens

A minha tese nesta apresentação é que essa «perseguição», no pensamento e na prática, pode e deve conduzir a um paradigma cristão do desenvolvimento humano, verdadeiramente «baseado no conhecimento».

Paradigma de que exuberantemente os seres humanos carecem, neste incerto dealbar do terceiro milénio depois de Cristo. Quando os poderes dos homens sobre outros homens e a própria Natureza são maiores do que nunca.

Passo a explicar-me.

O capitalismo do mercado global

O capitalismo não é um sistema rígido, configurado de uma vez por todas, dalgum modo fazendo estacionar a História. Pelo contrário, a sua maior força reside provavelmente no grande ímpeto de transformação que pode introduzir na dinâmica das sociedades. Na sua expressão actual, e na sua versão mais avançada, pode dizer-se que duas tendências prevalecem nessa dinâmica:

Uma, correntemente referida como globalização, significa um processo de unificação do sistema económico mundial, de crescente interdependência, ao mesmo tempo mais inter-ligado, integrado e, também mais desigual: neste processo, assume particular relevo a globalização financeira, que implica liberalização de movimentos de capitais à escala mundial e crescente determinação do processo global pela sua dimensão financeira;

Outra, designada por economia baseada no conhecimento, significa tendência para um modelo económico onde predominam na estrutura produtiva serviços «intensivos em conhecimento», e na estrutura do emprego, os «trabalhadores do conhecimento». Estes, em lugar dos operários, constituem a categoria-chave da mão-de-obra; as novas tecnologias da informação e da comunicação formam uma infra-estrutura essencial ao funcionamento da economia; a inovação – não necessariamente criativa, mas também imitativa ou adaptativa – é objectivo primordial da estratégia empresarial, e as próprias universidades, por vezes, assumem-se como organizações «aprendentes» e «empreendedoras».

Importa assinalar neste passo, embora a realidade em análise seja muito complexa e avessa a esquemas simplistas, que a globalização financeira condiciona fortemente – se não determina – o processo de globalização do conhecimento. Pois que o avanço do conhecimento é sobretudo condicionado pela necessidade de inovar na competição pelo

êxito no mercado global. Ou seja, poderá dizer-se que se esta economia é «baseada no conhecimento», este conhecimento por sua vez é «baseado na economia», isto é, em primeiro lugar determinado por considerações mercantis.

Neste contexto histórico, combinam-se diversas «transições», desde a mais óbvia e espectacular que caracterizou as últimas décadas do século passado – isto é, a chamada transição para a «economia de mercado», que se confunde com o próprio processo planetário de transição para o mercado global, ou seja, a globalização – até a referida transição para a economia baseada no conhecimento. Esta última transição, em síntese, significa afinal a passagem do mercado de trabalho para um novo e específico «mercado do conhecimento», como foco ou «local» central da acumulação de capital no sistema económico.

 É este sistema económico mundial, global e tendencialmente «baseado no conhecimento» que pode ser designado por capitalismo do mercado global.

 Tal como o fim dos chamados Terceiro Mundo (o dos «subdesenvolvidos») e Segundo Mundo (ou Sistema Socialista Mundial, na designação oficial da URSS e seus satélites) não foi previsto, nem resultou de agressão externa, também a emergência do mercado global e a configuração da tão louvada EBC («economia baseada no conhecimento) não foram «premeditadas» por algum super-agente, mas resultaram dum conjunto complexo de factores que surgiram determinantes na História mais recente. Entre eles, o progresso científico e tecnológico numa diversidade de áreas, de forma mais espectacular nas tecnologias da informação e comunicação, e a transnacionalização das empresas – no sentido de uma empresa sediada em certo país, controlar no todo, ou em parte, capacidades produtivas localizadas noutros países.

Consensos e paradigmas

Todo este processo de múltiplas dimensões, complexo e ambíguo, conduziu a uma situação histórica paradoxal em que, por um lado, os mais optimistas dizem que já estamos na «economia do conhecimento» a caminho da «sociedade do conhecimento», como faz por exemplo o mais conceituado ensaísta do management, Peter Drucker, e outros mais cépticos se interrogam sobre paradigmas explícitos ou ímplícitos no comportamento dos grandes actores. Paradigmas como o chamado Consenso de Washington, ou posicionamentos do Fórum Económico Mundial que pretendem inspirar políticas económicas, digamos, «eficazes e sensatas».

Os que não alinham em tais (reais ou supostos) consensos procuram organizar-se em amplos movimentos sociais contestatários dessa ortodoxia - onde podem juntar-se os mais diversos actores individuais e colectivos, entre eles grandes organizações sindicais, como a AFL-CIO ou o PT brasileiro e intelectuais de prestígio, como o norte-americano Immanuel Wallerstein,  teórico da visão de longo prazo do sistema mundial, ou os nossos bem conhecidos  Isabel do Carmo e Boaventura de Sousa Santos.. Tal é o caso do Fórum Social Mundial, criado em 2001 em Porto Alegre, no Brasil, sede dum movimento social que procura militar por «outra globalização».

A ONU. por seu turno, multiplica análises e recomendações programáticas sobre estas matérias, forjando ambiciosos documentos normativos como a «Declaração do Milénio», de 2000, donde resultou o Pacto entre as Nações para a extinção da Pobreza Humana. Os relatórios anuais da organização sobre «Desenvolvimento Humano», além de analisarem tendências fundamentais da condição humana à escala mundial, esboçam também orientações sobre temas de grande relevância e actualidade. Por exemplo o relatório do ano passado ocupou-se do tema da «liberdade cultural para o desenvolvimento humano».

Coloca-se aqui referir uma grande questão relativa à relação entre hegemonia económica e hegemonia cultural. A globalização é assimétrica, realiza-se num contexto de grandes desigualdades intra e inter-nacionais, e é fortemente condicionada pela hegemonia norte-americana. Poderia assim admitir-se que o processo significa, no plano cultural, a «americanização» do planeta, a caminho duma cultura global fortemente impregnada pelas práticas e valores da sociedade norte-americana. Gostemos ou não disso, seria o inevitável destino da evolução em curso. E poderia ainda admitir-se, como reforço desta hipótese, que a própria América do Norte é «global» na sua génese, e que ainda é portadora do melhor que o Ocidente gerou, incluindo a própria ideia de Progresso – em que segundo Charles Handy os americanos ainda acreditam, ao contrário dos europeus.

Enquanto a Europa é, quando muito e na feliz expressão de Étienne Balibar, um «mediador de culturas» que se esgota, ou desvanece, nessa mesma função

Entretanto, fala-se cada vez mais da emergência de novos actores no contexto mundial, sobretudo no Oriente, e a China é referida como sendo brevemente a maior economia

do mercado global, movendo-se o vector principal do crescimento económico mundial do Ocidente para a Ásia do Pacífico e deixando, de uma vez por todas, de o termo desenvolver significar, acima de tudo, «ocidentalizar»

Face a estas imensas perspectivas, perante as quais podemos quedar-nos receosos, perplexos e abúlicos, creio legítimo perguntar: mas esgotou-se o paradigma cristão como suporte dum desenvolvimento humano realmente «baseado no conhecimento»? Não residirá nele, ainda hoje, o possível tendencial «consenso» de todos que procuram e perseguem, na teoria e na prática, a chave do mistério humano?

Sobre o possível paradigma cristão do desenvolvimento humano «baseado no conhecimento»

Uma definição corrente, simples e simplista de «conhecimento» é a seguinte: organização da informação para responder a uma questão ou resolver um problema. Também é comum a distinção entre conhecimento explícito ou codificado e o «tácito», este último íntimo, pessoal, inerente a cada pessoa, e que pode até não ser perfeitamente consciencializado. Neste sentido, Sócrates enganou-se ou quis enganar os seus contemporâneos, quando disse, segundo consta, «que só sei que não sei nada» Sabia, realmente, muito mais do que isso.

 E mais: provavelmente, também dalgum modo «sabia que sabia»…

Há ainda, como disse, o conhecimento codificado ou explícito, organizado, escrito e transmissível.

Considera-se geralmente que a forma superior deste conhecimento reside no conhecimento científico. Qual o seu específico mérito?

O mérito do conhecimento científico reside, por um lado, no facto de utilizar específicas e sempre mais aperfeiçoadas técnicas de análise, ou teorias; e por outro lado, na sua «objectividade» Neste último sentido, a Ciência carece de demonstração, de confronto com a experiência, usa argumentos considerados válidos pela consagrada e respeitada comunidade científica. Rejeita-se, pois, o meramente subjectivo, seja opinião ou apenas convicção

Na verdade, a EBC de que tenho falado não remete exclusivamente, nem mesmo principalmente, para uma base científica: tem um suporte tecnológico é certo, mas também se fundamenta em saberes de variada natureza, como competências em gestão de recursos humanos, estratégia empresarial ou marketing. O conceito porventura mais essencial à EBC é afinal a «inovação», que não se manifesta exclusivamente em novos produtos ou processos, mas também, por exemplo, em novos modelos de gestão ou novas estratégias de internacionalização ou transnacionalização.

Não existe, assim, uma relação linear, directa entre Ciência e EBC. Mas creio legítimo reconhecer que é característico do mercado global que hoje conhecemos a ampla e intensa procura, de dimensão sem precedentes, dum conhecimento, se necessário de fundamento científico e/ou tecnológico, gerador de inovações que possam ter êxito na competição mercantil. Nesta perspectiva, podemos hoje falar dum «mercado do conhecimento», de características muito específicas, mas em que a oferta de conhecimento é largamente motivada por uma «procura de conhecimento» por seu turno determinada pelo sistema económico

É assim que chegamos à já referida ambiguidade essencial do sistema económico em que hoje vivemos: gera mais saberes, muitos mais bens e serviços mas não necessariamente mais justiça, maior bem-estar do grande número, nem melhor «desenvolvimento humano». Por exemplo: é provável que o conhecimento científico do homem, quer na sua dimensão psicológica quer na fisiológica, no diagnóstico e tratamento de certas doenças pudesse estar hoje mais avançado se maiores recursos financeiros tivessem sido orientados para a investigação científica nesses domínios. E isto seria sobretudo necessário face às carências mais prementes, exactamente, dos países economicamente menos desenvolvidos

É certo todavia que organizações não lucrativas, como fundações, igrejas e as chamadas ONG desempenham um papel de crescente influência nas sociedades desenvolvidas actuais. Citando uma vez mais, o famoso guru da gestão, Peter Drucker, ele não tem relutância em afirmar que as organizações mais importantes do futuro são as não lucrativas, dedicadas à saúde, educação ou vida espiritual das pessoas. Aliás, sem cair num cinismo fácil, reconheço ser possível que a própria economia global permita suscitar, em determinadas sociedades, uma maior «procura de religião», ou noutra linguagem, um maior mercado para algo que se poderá designar por «produto religioso»

Se tudo isto é verdadeiro, que sentido faz então propor um paradigma cristão do desenvolvimento humano «baseado no conhecimento»? Ñão se tratará, digamos, de forçar uma porta aberta, pois ele já existe, e desde os primeiros tempos da religião cristã?

Julgo que não é assim. No caso da religião católica institucionalizada, a História revela-nos uma longa e por vezes trágica crónica de obscurantismo, constrangimento das consciências, conivência com poderes temporais opressivos, etc. Um lado sombrio que não podemos ignorar, apenas contemplando o lado luminoso

Em particular, é de sobejo conhecida a tensão entre o desenvolvimento do pensamento científico e o posicionamento tradicional da Igreja Católica. O clássico romance de Roger Martin du Gard, «O drama de João Barois», que muito me impressionou quando pela primeira vez o li na minha tenra juventude, é bem revelador do espírito duma época : O grande cientista, João Barois, ateu na plenitude da sua inteligência, converte-se à religião católica apenas quando o envelhecimento lhe provoca um grande temor pela inevitável morte. É esse temor que o leva a desprezar a Ciência e à «conversão» terminal da sua existência.

Esses tempos distantes, que a obra de Martin du Gard bem simboliza, estão ultrapassados, é certo Mas a convivência.do cristianismo «codificado» pela Igreja católica e o mundo dos primórdios do terceiro milénio da era cristã está longe de ser fácil e harmoniosa, iluminada pelo Espírito que é suposto abrir infinitos horizontes ao nosso desenvolvimento pessoal.

Aliás, o recente falecimento do Papa João Paulo II, certamente o mais mediático e global dos pontífices – no sentido de mais viajado e maior comunicador à escala planetária – contrastou, como tem sido frequentemente referido, com o discurso conservador em determinadas matérias, como a questão do aborto, também característico do seu pontificado. Dir-se-ia que se trata dum contraste emblemático duma época de transição, transição também no fenómeno religioso..

O que está então em causa na perspectiva em que me tenho colocado nesta apresentação?

Fundamentalmente, e numa abordagem necessariamente ligeira de questões profundas e complexas da condição humana no nosso tempo, julgo que há quatro questões básicas a defrontar, na construção do que tenho chamado paradigma cristão de desenvolvimento humano «baseado no conhecimento»:

1

O ser humano preza hoje, mais do que nunca, a sua liberdade individual, designadamente na vertente intelectual e cultural, como condição necessária do seu próprio «desenvolvimento humano». O que significa crescente relutância na aceitação dum princípio de autoridade como fundamento exclusivo ou principal do seu devir individual e colectivo. Poderá talvez afirmar-se que cada um se considera totalmente responsável da sua própria ideologia ou visão do mundo e que esta, no fim de contas, resulta duma interacção pessoal e única de conhecimento tácito e de conhecimento codificado

2

Em contrapartida, a infraestrutura tecnológica hoje comum, em particular no domínio da informação e comunicação, além doutros factores, gera um riquíssimo potencial de conectividade, de partilha e interacção, entre os seres humanos nas várias escalas da sua existência, do local à dimensão global ou planetária. O que permite, entre outras coisas, a construção colectiva de conhecimento, nos vários domínios em que a curiosidade humana se interroga, incluindo o domínio mais fundamental de todos, traduzido nas clássicas interrogações «quem somos, donde vimos, para onde vamos?» Nesta perspectiva, se o místico tradicional procurava o cume da montanha para a sua meditação, o místico do nosso tempo pode preferir escalar a montanha de informação contida na Internet para penetrar no mistério da sua existência....

3

Se é certo que a fé num Deus vivo e eterno é inerente à condição cristã, e que essa fé se manifesta numa experiência pessoal única e intransmissível, não é hoje mais possível aceitar como definitiva e irremediável a divisão entre a visão científica da «realidade» e a fé numa transcendência que, para o crente, tem a chave do sentido da existência e também do próprio universo. Ou seja: uma visão cristã do homem e do universo não pode deixar de procurar na pesquisa científica uma fonte insubstituível e inesgotável do  «desenvolvimento humano»

4

Finalmente, se tendem a multiplicar-se, e por varas razões, as organizações não lucrativas, em variadas formas de associação e visando múltiplos propósitos, directa ou indirectamente servindo a finalidade genérica do «desenvolvimento humano», parece possível e desejável desenvolver redes de comunicação e partilha entre tais organizações, num propósito comum de enriquecer na teoria e na prática o paradigma de que tenho falado.

«O futuro a Deus pertence», diz a sabedoria popular

Incluindo nesse futuro, certamente, o homem que não desiste de procurar Deus em si mesmo e nos outros homens.

Texto base da intervenção do autor na Conferência organizada pela Comissão Nacional Justiça e Paz, sob o tema «Para um desenvolvimento justo e sustentável» e realizado no auditório da Culturgest em Lisboa, a 21 de Maio de 2005

 

 


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